Jovem gay é encontrado tomando sorvete na praia

sorvete | pexels

Essa será a manchete quando eu virar uma subcelebridade, depois de participar de algum reality show, alimentando o voyeurismo da raça humana. Nesse ponto já terei feito uma descoberta científica importante, quiçá terei pisado na lua, e ainda assim serei notícia factual de verão, adjetivado e colocado no centro da editoria de cotidiano.

Se Caetano é visto atravessando a rua, eu sou visto tomando sorvete na praia. E o que há de errado nisso? O que haveria de errado em tomar um sorvete rosa fofo no auge da estação? JOVEM GAY É ENCONTRADO TOMANDO SORVETE NA PRAIA.

Quem edita o jornal? Quem cobre a pauta? Quem serve de paparazzi? Faço poses. Percebo a câmera e alguém grita “seja mais afeminado que fica melhor para a capa”. Serei capa. Virarei assunto e morrerei sendo a única coisa que sou: um jovem gay que toma sorvete na praia.

Não importa se meu nome é João e não importa se casei com o Fernando. Posso imaginar o futuro, telefone tocando quando faltar assunto: olha, a gente lembrou de você. É verdade que sua relação vai fazer futuro no altar? E o assunto segue. E o palco é montado. No dia seguinte estaremos lá:

JOVEM GAY CASA COM GAY DEZ ANOS MAIS VELHO.

Novamente somos: gays. Apresentados pelas amigas que, mordidas pelos dentes afilados do cupido:

– Não acredito que você é gay! Tenho um amigo gay para te apresentar!

Somos gays em casa. Gays na balada. Gays na playlist.

Somos gays na dança, na roupa e no jeito de andar. Somos gays estudantes, gays que estão em aplicativos de encontro, gays que só tinham amigas na infância. Somos gays e isso basta para as pessoas que estão acima do bem e do mal, de qualquer preconceito.

– Eu, preconceituoso? Imagina… Meu melhor amigo é gay e ele é uma ótima pessoa!

Se é gay sabe todas as coreografias, discute cores e sabe falar de divas pop. Se é gay sabe dar pitaco em “coisa de mulher” e sabe, acima de tudo, ser gay: dar pinta, ter trejeito. E tem que incitar a desconfiança; se é gay tem que dar sinais para a mãe “porque mãe sempre sabe”.

49 pessoas LGBTs morreram em junho do ano passado por serem exatamente isso: L G B T s. Viraram notícia, chocaram o mundo e agora são estatísticas. Morri junto com eles, de uma morte barulhenta e doída. Mas sobrevivi.

E agora viro notícia por ser um GAY QUE TOMA SORVETE NA PRAIA. Porque não tenho nome, nacionalidade e não sou singular. Sou gay por ser e viro notícia por isso. Tenho que representar um papel porque é o único que sobrou.

Tenho que assinar gay.

Enquanto isso vítimas fatais viram memória amarelada, seguem na clandestinidade.

E eu viro notícia por ser gay, famoso, casado com um gay dez anos mais velho e por tomar sorvete na praia.

Não sou eu, sou gay. Apenas gay. Porque a homofobia vem a galope de burro e a intolerância alimenta a fome dos medíocres.

Ronaldo Gomes

Ronaldo Gomes

Estudante de jornalismo que teoriza sobre qualquer besteira que encontra pela frente. Adora dançar – não na frente das pessoas – e escreve em um ritmo sobre-humano, ou gostaria. Já cantou em um coral, escreveu a própria biografia quando tinha menos de 10 anos e hoje vive contando histórias sobre a inimaginável capacidade humana de ter sentimentos.
Ronaldo Gomes

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