Let it go • We Love

Let it go

Let it go | Banksy

Entre os exercícios mais difíceis da vida está aprender a ‘deixar ir’. Quando a gente ama, ou simplesmente acha que ‘precisa’ de alguém, ou apenas está acostumado com aquela presença e já ‘nem lembra mais como é viver sem’, parece que acionamos um dispositivo que libera algo viscoso, feito aquelas colas instantâneas, acreditando que a melhor forma de manter aquilo ali é segurar. Agarramos com força, sem perceber que os hematomas só aumentam – em nós – a medida que apertamos. Egoísmo, medo da solidão, do novo, comodidade, algum interesse supérfluo, tantas coisas antônimas do que deveria prevalecer: a vontade de ficar.

Perdi meu pai com um câncer devastador, e lembro perfeitamente um dia em que ele me abraçou chorando e disse: ‘filha, estou cansado’. Aquela frase atropelou meus sentidos e ali me vi obrigada a aprender, na marra, o que de fato é deixar ir. Puxar cera de depilação, descolar dois dedos presos com super bonder, arrancar um esparadrapo grudado nos pelinhos, nada dói mais do que se ver obrigada a se desprender do que você acredita ser parte de você, ou do que é realmente pedaço seu.

Dali em diante eu percebi a importância de praticar o desapego além da forma lúdica e piadista com que usamos a expressão. Deixar ir é amar(-se) em dobro, respeitar(-se) em dobro e aprender que nem aquilo que te é mais caro te pertence de fato. Existem vontades, desejos, sonhos, desistências que são do outro. Existem planos, merecimentos, destinos que são do outro. Existe o outro e existe você, e por mais que essa equação pareça sempre uma soma, não é. Saber dividir a necessidade do outro talvez seja a forma mais sábia de dar a mão, nem que seja pela última vez. Deixar ir é libertar duas almas: a de quem vai e a sua.

Amores, amigos, filhos, pais, avós, tudo tão nosso, que parece dissociável, mas que, na verdade, sempre foi alado.

Deixar ir é respeitar as asas do outro, cortá-las é privá-los do que os torna encantadores. Peixe não é feliz no aquário, passarinho não é feliz na gaiola, girafas não são felizes no zoológico e pessoas não são felizes presas às grades do nosso egoísmo. E nem nós.

Roberta Profice é colunista do We Love e escreve aqui às sextas. Leia outros textos dela aqui.

Roberta Profice

Roberta Profice

Jornalista, carioca, mãe do Du, dona da Martha, cervejeira, que divide seu coração entre a Má, a praia, a escrita e a cozinha. Nada necessariamente nessa ordem. Escreve todas as sextas.
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