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Logo eu, que sempre achei legal ser tão errado

Logo eu, que sempre achei legal ser tão errado

Eu não sou essa pessoa. Eu não caminho fora da linha; meus passos são planejados com uma semana de antecedência e o meu weekly plan tem todos os meus compromissos e tarefas até o final do mês. Esse deslize não cabia lá. Não planejei nada disso, não tinha intenção de somar dois com dois e receber um novo resultado que não o quatro de sempre. Mas, olhe: aconteceu.

Não tava no script. Definitivamente. E quando não tá no script, é mais difícil reconhecer a atitude tomada (ou a vontade sentida, talvez?). Até porque, veja lá, todos temos um manual próprio de coisas que gostaríamos de ser. São modos de ação, de pensamento, do que gostaríamos que pensassem de nós quando pensassem em nós – se gostaríamos que pensassem ou não em nós. E eu não queria, nem de longe, querer isso. Eu não deveria: é errado. Aparentemente, faz até mal.

Nós somos nosso conjunto pessoal de regras. As coisas que gostaríamos de fazer no impulso. A pessoa que gostaríamos de ser no meio de uma discussão política, quem gostaríamos de ser numa briga de casal, “de que lado você vai ficar?”, “o que você faz se descobre que seu amigo tá sendo traído?”, “você se mete ou deixa que metam?”. Quando você enxerga o outro numa situação de difícil escolha, pela qual você nunca passou, você diz “eu não faria isso jamais!”? O segredo que te conto hoje é que “jamais” é muito tempo: acredite em mim.

Nossas verdades absolutas são pautadas pelo o que já vivemos e pelo que temos de bagagem. Você pensa como pensa, porque ainda não passou por aquilo. Sentir na pele muda tudo. Por isso, vou te dizer: eu ainda não sou essa pessoa.

Mesmo que o caminho por fora da linha seja uma maravilha. E passos sem plano deem um arrepio na espinha que a minha pele anseia por sentir – e eu, dentro da linha, do script e do planejamento, odeio admitir. Continuo sem ser essa pessoa.

Parece errado, incorreto, o gosto não devia ser bom. Mas é. E eu faço. E, você vai notar, é muito melhor do que você imaginou que seria. E, contrariando todas as expectativas, também não é amargo. Não tem gosto de sujo, não parece falho, tem todas as pontas amarradas e não deixa ninguém triste. Muito pelo contrário.

Ser a pessoa que não cabe no meu script é um desafio que não tem terapia, cerveja, reza braba ou vinho chileno que ajude a amenizar. Mas a vida real inclui “não ser”; estar fora da curva e enfrentar a vida de frente, assumindo as broncas que isso traz. Assumir quem se é. O que se quer, o que se faz, o que se sabe. A vida é assim. As coisas acontecem. Até as que você “jamais!”. E você também não vai ser essa pessoa quando acontecer com você.

Eu não sou

Gi Marques

Gi Marques

Sou a poesia da contradição de tênis e batom vermelho escrevendo histórias que vivi e inventei (qual é qual já não dá pra te contar).
Gi Marques

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