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A mágica do desaparecimento

A mágica do desaparecimento

Não sabia arrumar armário. Nunca soube. As roupas pareciam ganhar vida lá dentro, pois viravam um amontoado, uma peça só de várias cores e estilos. Não tinha estilo. Nem tatuagem. E quando chovia, gostava de sair na rua sem guarda-chuva. Pra se molhar mesmo. Tempo é feito pra ser vivido. Não se deve fugir do que se tem.

Viveu acolhendo a vida e o que ela lhe trazia. Até o dia em que pensou ter perdido ela por inteiro. É possível morrer e estar viva. É possível morrer para seus amigos, para seus familiares. Basta ficar doente.

Foi no dia vinte de março daquele ano. Do ano que faria trinta e três anos que sucumbiu ao descontrole. Perdeu o chão. Algo aconteceu na sua cabeça. Foi como se pudesse ouvir o barulho, uma explosão interna. Saiu do ar. Desse ambiente que acredita-se ser normal. E foi pra outro lugar. Um lugar desconhecido.

Foi para o lugar que vão pessoas que escutam vozes, veem espiritos, acreditam ser algo que não são – ou são, de certa forma. Foi para o lugar de onde muitos não relatam voltar.

Anita fez um telefonema naquele dia que iria selar seu estado emocional para o descontrole total dali por diante. Ligou para Angelo, que vivia longe, numa cidade pacata, mas muito interessante. Para onde ela viajaria de férias para encontrá-lo. Eles haviam conversado por meses a fio até ela tomar a decisão, finalmente, de ir até lá. Sua vida não estava tranquila nem agradável. Queria mudar tudo. E um amor viria muito a calhar. Ser salva por um romance inacabado, que vinha dos tempos da escola, seria algo muito lindo. E ela se segurava nesta esperança.

Quando anunciou sua chegada veio a notícia bobástica.
– Olha, preciso lhe falar uma coisa. Eu engravidei uma menina. Estou namorando ela há três meses. E não tinha te contado antes porque podia ser que ela perdesse o bebê. Mas vamos casar e eu mudo para morar com ela exatamente no dia em que você chega aqui.

A sensação que tinha era de ter sido feita de boba. Palhaça. Seu mundo desmoronou. Como foi tão ingenua? Como foi acreditar que amor assim, a distância, poderia ser verdadeiro? Como poderia sentir aquilo por alguém praticamente desconhecido? Se sentiu traída, humilhada. E foi neste momento que sua mente a deixou de vez. Sentiu algo explodir. Não sabia o que sentia mais. Nem o que pensava. Não sabia o que fazer.

Pegou o carro e saiu andando pela cidade. Foi parar numa igreja qualquer. Só que, por mais que rezasse, a angústia não passava. Nada mais iria lhe salvar. Ela, que sempre foi adepta de tratamentos alternativos, foi parar num médico mesmo. Daqueles mais difíceis de se procurar. O psiquiatra.

O mundo para o doente de psiquiatria é muito solitário. Porque as pessoas não gostam de falar nem de saber sobre doença. As pessoas querem saber de histórias de glória e superação. Mas não do perrengue que você passou para conquistar tudo que tem no momento. As pessoas fogem. Desaparecem do seu redor quando você está doente. Ninguém quer sofrer sua dor. Chorar seu destino. As pessoas querem ter suas vidas, tão caóticas e difíceis, sempre suavizadas por um sorriso, pela comédia. Mas é difícil conviver com um drama. E o drama entrou na vida de Anita sem dó. Assim, de uma hora pra outra.

Um coração partido. Um trabalho que, ao mesmo tempo, perdeu todo sentido. Uma falta de motivo para viver. E seria fácil tudo isso se ela tivesse tido uma depressão. Mas, não, ela teria muitas coisas em conjunto. Um diagnóstico muito difícil de entender.

Não há quem não sonhe em ser alguém um dia. Conquistar família, reconhecimento, dinheiro, sucesso. Mas ninguém pensa que manter a saúde deveria ser seu maior bem e seu maior propósito de vida. Perder a saúde é perder tudo muito rápido ou, independente do que conquiste, nada, nada valerá a pena.

Sabrina Guzzon

Sabrina Guzzon

Publicitária. Desenha e escreve por hobbie. Ama também cozinhar. É mãe da Maria Flor, do Antonio e esposa do Fernando. Faz regime constantemente e nunca dá muito certo. Deve ser porque odeia academia. Acha que é ruim em tudo, mas mesmo assim se arrisca.
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