Mataram-nos 49 • We Love

Mataram-nos 49

Mataram-nos 49 | Pixabay

Tivemos armas apontadas para o nosso peito 49 vezes. Silenciamos 49. Nos roubaram o direito de amar. Caímos 49. 49 vezes ecoaram o nosso medo. Morremos. Fomos mortos.

A nossa dor doeu mais na madruga do dia 12 de junho de 2016. Apontaram uma arma e apertaram o gatilho. As vidas se perderam e o último eu te amo foi dito em uma última mensagem desesperada, antes de perecer. O dia custou a amanhecer.

Gritamos todos. Sentimos todos o cheiro da pólvora. O metal frio deixou frios corpos, estendidos, cerceados do direito universal de amar. Reivindicamos amor e morremos. Amar e matar, verbos que nunca deveriam figurar em uma mesma frase. Gramática incorreta.

A intolerância nos matou. O preconceito custa a nos deixar ser quem somos. Hoje, 49 vezes, as mãos se sujaram. Corram, corram todos e fujam. Gritem.

Silêncio.

49 vezes silêncio.

Matam-nos todos os dias. Quando fazem piada de nós. Quando riem das piadas que fazem de nós. Quando não nos deixam demonstrar amor em público. Quando não nos deixam doar sangue. Quando precisamos encontrar brechas nas leis para casar ou adotar uma criança. Quando nos olham torto. Quando nos expulsam de casa. Mataram-nos 49 vezes mais.

O barulho dos tiros manchou o amor de sangue. O vermelho escorreu da bandeira LGBT. Escorreu também dos corpos mortos. O ódio sufocou o medo e fez vítimas. Faz vítimas. Fica cada vez mais difícil explicar para nossas crianças a ignorância, a ira, a falta de amor e o preconceito.

Por que custa tanto amar? Por que nos roubam esse direito? Morremos todos, de uma morte cruel. De uma morte provocada, lenta, diária. O dedo que segura o gatilho às vezes é sutil, mas sempre deixa um rastro de dor.

O eco dos tiros crepitou nos ouvidos.

Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang!

Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang!

Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang!

Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang!

Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang!

Foram mais 53. São mais, incontáveis, diários.

Parem de apontar as armas.

Lutemos para que falte bala nos coldres da LGBTfobia.

Ronaldo Gomes

Ronaldo Gomes

Estudante de jornalismo que teoriza sobre qualquer besteira que encontra pela frente. Adora dançar – não na frente das pessoas – e escreve em um ritmo sobre-humano, ou gostaria. Já cantou em um coral, escreveu a própria biografia quando tinha menos de 10 anos e hoje vive contando histórias sobre a inimaginável capacidade humana de ter sentimentos.
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