Mil e uma maneiras de falar a palavra amor • We Love

Mil e uma maneiras de falar a palavra amor

Mil e uma maneiras de falar a palavra amor

Está lá, na certidão de nascimento que imprecisa uma data apoteótica para demarcar um momento comemorativo exato. Não tem pai nem mãe, é órfão de qualquer coisa que seja um ventre; um ventre físico e literal. Nome também é igualmente turvo, não turvo névoa, mas turvo subversivo: chamam disso, daquilo, daquilo outro e até de… Como chama mesmo… Aquilo que a gente sente começando na boca do estômago?

Sintomático, espaçoso, terrível e arrebatador. Articulam poesias os poetas, traduzem prosas de línguas que ficam do outro lado do continente, arrumam desculpas, palavras certeiras, frases metafóricas, anedotas por demais bonitas e bonitas. Arruma um lar aqui, um homem e uma mulher, duas mulheres, um homem e um homem, para além disso, mais ou menos do que isso.

Criado com uma selvageria assustadora, ergue muros, explode minas, faz uma borboleta voar em todo céu cinza – lá pelo fim de semana deita devagarinho e se cobre inteiro, toma qualquer bebida quente, diz que fica, fica mais uma porção de tempo só. Vai embora sem aviso, deixa um bilhete, por vezes, por vezes não. Escrevem. Escrevem. Morrem por escrever. Vivem por não se deixarem morrer.

“Meu bem, não chores/hoje tem filme de Carlito”, Drummond, num assombro. “As revoluções sempre foram o lugar certo para a descoberta do sossego”, Campilho, num lamento fatal. “Quando digo que nasceram/ flores novas na terra do jardim/ quero dizer/ que estás bonita”, Peixoto singelo e pouco feroz.

As árvores crescem como doninhas, existe um coração, uma costura e vai se desfazendo a certidão de nascimento, a data, a orfandade, o nome, qual é o nome, onde está o nome, e as desculpas, as palavras que ficam se rabiscando nos corpos, entre as bocas, as mãos. Um ou dois passos, um caminho cortado no vale. Está tudo acabado em quatro segundos.

Gritam e dizem: mas eu amo, eu amo mesmo! As lágrimas começam a se prenunciar as intermitências, uma pulsação que faz do sangue um maratonista, corpo uma grandiosa competição e tudo vai sendo sentido, voltamos aquilo que se chama “a gente sente começando na boca do estômago”. É sempre o começo – e o final, o final ninguém sabe ao certo.

Há muitas maneiras de descrever o amor. Nenhuma é exatamente precisa.

Ronaldo Gomes

Ronaldo Gomes

Estudante de jornalismo que teoriza sobre qualquer besteira que encontra pela frente. Adora dançar – não na frente das pessoas – e escreve em um ritmo sobre-humano, ou gostaria. Já cantou em um coral, escreveu a própria biografia quando tinha menos de 10 anos e hoje vive contando histórias sobre a inimaginável capacidade humana de ter sentimentos.
Ronaldo Gomes

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