O que você precisa saber antes de viajar de kombi • We Love

O que você precisa saber antes de viajar de kombi

Minha primeira viagem de Kombi | Crédito: Raquel Magalhães

O convite inusitado partiu de um amigo.

– Vamos voltar do Rio de Kombi nesse final de semana? – ele sugeriu entusiasmado.

– Claro que não – respondi sem pestanejar.

Sou daqueles chatos que valorizam conforto. Não cheguei aos 30 ainda, mas, na minha cabeça, estou beirando os 40.

– Não, pô. É uma Kombi super estruturada de uma amiga. Ela reformou todinha; tem som, almofada, banco de couro, decoração temática (risos). Vamos! – ele insistiu.

A empolgação dele começou a me incomodar. “Ele não pode estar falando sério; será um programa daqueles que você quer matar a pessoa que te levou”. Prossegui então com a minha negação matusalém.

– Não vai rolar – falei em um tom conclusivo.

No entanto, amigo que é amigo conhece os seus pontos fracos e sabe exatamente o que falar para te convencer:

– A gente vai tomando umas cervejinhas…

Foda. Tive que ir.

A nossa carona amiga marcou um endereço no centro do Rio. O sol se aproximara do horizonte quando uma charmosa Kombi branca com calotas vermelhas estacionou na nossa frente. As laterais nos brindavam com cartões postais de São Paulo – o que já me animou; afinal quatro dias no Rio é muito tempo para quem não entende por que as pessoas insistem em andar de trajes de banho na rua.

Entrei no veículo com um leve sorriso no rosto – ainda não queria me dar por vencido, mas estava complicado. As almofadas amarelas com os bancos de couro vermelho me trouxeram as lembranças da Kombi amarela da família Hoover de Pequena Miss Sunshine. Desventuras, risadas, encontros… Todos eram bem-vindos na história criada por Jonathan Dayton: um cunhado com tendências suicidas, um vovô viciado em drogas, um pai fracassado como escritor, um adolescente em voto de silêncio e uma criança desajeitada. A metáfora me veio à cabeça: Kombi é maior para caber mais gente, mais jeitos, mais formas de pensar, mais amor – talvez.

Aceleramos pela estrada e a falta de ar-condicionado nos fez deixar as janelas abertas. O vento soprava forte e nos trazia uma energia incomum do asfalto, quase como se ele conversasse com a gente: “estava esperando por vocês, vamos em frente”.

As luzes lá fora anunciavam que a noite caíra para nos acompanhar. E, como toda boa viagem, precisávamos de uma trilha sonora à altura para o momento. Achamos um CD empoeirado no fundo do porta-luvas. Era Tim Maia. Repetimos “Eu amo você, menina” mais de três, entoando coros cada vez mais altos. As horas se passaram depressa e os meus amigos dormiram. Sobramos eu e a motorista.

Ela estava atenta à estrada. E eu voando sozinho: “acho que teria gostado de Woodstock. Talvez, eu possa adiar a minha chegada à cerca branca do sossego e viver mais alguns dias, ou anos, com a formosura de uma Kombi”, cogitei ao avistar os muros grafitados da Terra da Garoa.

vkombi

Adler Berbert

Adler Berbert

Editor do We Love. Jornalista, curte frases de efeito, acha que sabe jogar vôlei e está viciado em tirar fotos de anúncios nos postes da cidade. No colegial, foi expulso da banda marcial por não ter ritmo, mas ainda continua acreditando que tem potencial musical.
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Comments

  1. Stéphanie Dias

    Amei o texto!

    Me fez querer ainda mais fazer uma viagem assim; despretensiosa e libertadora pra alma. Amo ler e me perder em seus textos. Mais, por favor! 😊😍

    Grande abraço Adler e sucesso sempre! 😘

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