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Minhas cicatrizes são tudo que tenho

menino floresta | pixabay

Eu sou uma coleção de cicatrizes, desorganizadas e espalhadas pelo eu que ninguém vê. Mantenho-as ali para lembrar a todas as versões de mim que o futuro é incerto, o presente é uma extravagância inédita e o passado é uma escola que tem métodos pedagógicos revolucionários e antiquados – em medidas proporcionais. Por isso eu sou uma coleção de cicatrizes.

Ganhei a primeira quando, acidentalmente, fui gerado. As lágrimas maternais de desespero traçaram geneticamente um caminho que todas as outras de alegria esconderam, mas não apagaram. Não restou culpa, mas marcou. Não fui o mesmo desde ali. Não sou o mesmo desde então. Então, nasci.

Nascer é um verbo primário, embora esteja na segunda conjugação. Nascer é ganhar vida e estar fora, ganhar vida e chorar, ganhar vida e romper, ganhar vida e dizer ao mundo “estou pronto para a batalha”. Nascer é ganhar vida e morrer no ato.

Minha segunda cicatriz ganhei quando o médico, fatidicamente, precisou cortar o cordão que minha mãe usava para me alimentar. Conta-se que meus gritinhos agudos ecoaram pelos quartos vazios da maternidade por muito tempo depois. Chorei porque doeu. Chorei porque nascer dói e aquela cicatriz umbilical seria visível por fora. Chorei porque chorar é estar vivo.

Não lembro da terceira, nem da quarta, nem da quinta, embora elas sejam protuberantes quando tateio por dentro. Não lembro da oitava, mas a décima segunda ganhei quando parti o coração de alguém que eu amava. Magoar também deixa vestígio. Magoar também é marca, memória, incisão em si mesmo. Magoar também tem um tanto de autoflagelo. Esta cicatriz só eu vejo. Ela dói especialmente nas noites em que a estação de rádio fica em estática.

Consegui uma cicatriz quando um amigo foi embora. Tenho outra de quando vi uma pessoa querida padecer no leito de um hospital e, se algum dia você conseguir enxergar uma enorme, que fica do lado esquerdo das minhas costas, saiba que foi de quando passei três noites seguidas chorando sem parar. Foi quando entendi que a dor de perder alguém para a morte é desesperadora.

Cicatrizes são marcas profundas que ganhamos toda vez que algo igualmente profundo nos acomete. São marcas que às vezes doem, às vezes lembram, às vezes esquecem e, às vezes, simplesmente existem, por si. São pequenas, médias, grandes, devastadoras, confortáveis, leves, pesadas e eternas. Cicatrizes são singelas e poderosas coleções de acontecimentos importantes que rememoram nossa humanidade.

Minhas cicatrizes são tudo que eu tenho. E acabei de oferecê-las a vocês, sem requintes, servidas primorosamente em palavras simples. Saboreie-as e me convidem quando estiverem prontos para o banquete das suas próprias.

Ronaldo Gomes

Ronaldo Gomes

Estudante de jornalismo que teoriza sobre qualquer besteira que encontra pela frente. Adora dançar – não na frente das pessoas – e escreve em um ritmo sobre-humano, ou gostaria. Já cantou em um coral, escreveu a própria biografia quando tinha menos de 10 anos e hoje vive contando histórias sobre a inimaginável capacidade humana de ter sentimentos.
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