A moça na janela • We Love

A moça na janela

Sentada na janela, seus cabelos ruivos, que já mostravam a raiz preta, brilhavam com uma cor opaca e balançavam com o vento do fim da tarde.

Ela sabia como as pessoas olhavam-a: com olhos críticos, olhos de nojo, olhos de desprezo. Apesar de estar acostumada, não podia compreender estes olhares, não conseguia entender o porquê deste julgamento se ninguém realmente a conhecia.

A maneira como se vestia (ou não) com roupas chamativas, decotadas, o jeito provocante de andar e falar não era ela, mas sim como as pessoas a moldavam. Ela era mais do que sua aparência, ela era sentimentos perdidos, desprezados, era um coração partido, um ser com uma vida que perdeu a essência.

Na janela, observando o vai e vem das pessoas, ela sonhava sonhos coloridos, sonhos alegres, sonhos impossíveis. Sonhava o inalcançável: ser vista com outros olhos. Sonhava conseguir amar de novo, ser amada. E, principalmente, sonhava ser aceita com todos os seus defeitos.

Agora não era nada além de um rótulo. De uma bebida sem gás, sem gelo, sem gosto. Sentada ali naquela janela recordou da infância em uma casa simples e de todo o amor dos pais que preenchia os cantos, com seu livro de pintar, com os amigos e o colorido dos balões na festa de aniversário.

Alguém passou e fixou o olhar em seus olhos caídos, outro na sua coxa exposta num minúsculo shorts, mas nada feriu lhe mais do que aquele que passou e não a notou.

Abandonar a casa dos pais e tentar a sorte em uma cidade grande, talvez, não tenha sido a melhor escolha dela, mas era o que ela tinha agora. Teve a opção de não aceitar a vida que tinha hoje, mas preferiu ser forte e seguir o caminho que vinha trilhando.

Fechou a janela, escovou os cabelos tentando dar brilho a eles, engoliu um copo de conhaque para aguentar o frio do meio de julho e, principalmente, o descaso das pessoas. Arrumou os seios no decote da frente única e saiu.

Atravessou a rua sem olhar dos lados, tinha a pose de uma princesa das histórias da sua meninice e o coração duro como um casco de dragão. Seguiu até o seu ponto, uma praça pouco iluminada e com pessoas que buscavam por gente como ela, mas antes de chegar no seu destino, o próprio pregou-lhe uma peça: virou estatística com um tiro de uma mulher enganada por um marido que era um bosta.

Vivian voltou a ser Esperança. Uma esperança morta, deixada na rua como um saco de lixo no fim do dia.

Natalia Moreno

Natalia Moreno

Natalia Moreno é apaixonada por literatura, animais, músicas... Formada em Letras, pós graduada em Literatura Inglesa é autora dos romances Quando eu me amar e Marcas da Vida. Tem o defeito de querer colocar tudo em ordem, desde um quadro torto até o mundo e se desespera por este último estar fora do seu alcance.
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