A moda é sim um protesto poderoso • We Love

A moda é sim um protesto poderoso

golden globe moda fashion all black me too assédio hollywood

A moda sempre foi usada como uma forma de protesto em diferentes épocas e de diversas maneiras distintas. Recentemente, o número de desfiles que adotam camisetas com frases de protestos e em defesa de causas distintas aumentou.

Por definição de Roland Barthes, a moda é um sistema complexo. Quer dizer que ela não possui um único sentido. Ela se expressa por meio de uma peça de roupa, mas comunica uma variedade de significados. Ou seja, é um costume, um conjunto de opiniões, gostos, assim como modos de agir, viver e sentir coletivos.

A moda une o que a sociedade insiste em separar.

Se você assistiu à 75º edição do Golden Globes, realizado no dia 7/1, talvez não tenha percebido o protesto das atrizes que estiveram no evento: elas usavam preto. A edição que abre a temporada de premiações de cinema apresentou a campanha Time’s Up, lançada no dia 1º de janeiro de 2018. Visando denunciar o assédio sexual que existe na indústria de Hollywood.

O manifesto criado por Natalie Portman e Meryl Streep, dentre outras, conta com o apoio de mais de 300 atrizes, diretoras e escritoras, e levantou mais de US$ 13 milhões para um fundo que ajuda financeiramente mulheres (e homens) de baixo poder aquisitivo a se defenderem na Justiça em processos relacionados ao assédio em todo tipo de profissão, não apenas no cinema. Cate Blanchett, Reese Whiterspoon, Kerry Washington, Emma Stone, Eva Longoria, America Ferrera, Shonda Rhimes, Ashley Judd, a presidente da Universal Pictures Donna Langley, a escritora feminista Gloria Steinem e Tina Tchen, a advogada e ex-chefe de gabinete de Michelle Obama são alguns dos nomes que assinam o manifesto.

Além de vestirem preto em apoio à campanha, um pin foi criado para os homens indicados e que iriam apresentar prêmios. Dentre os que colocaram o broche com a inscrição Time’s Up estão Joseph Fiennes, Freddie Highmore, Justin Hartley, Finn Wolfhard, Gaten Matarazzo e Noah Schnapp – os três últimos são de Stranger Things. A atriz Blanca Blanco chamou atenção ao desfilar pelo tapete vermelho ao usar um vestido vermelho sensual, destoando dos looks pretos das atrizes que apoiavam a campanha Time’s Up.

Bem na fita

Todo mundo sabe que ser engajado é “cool”. Muitos artistas vestiram o preto ou o pin da campanha, mesmo que tenham sido condescendentes com o histórico de abusos, por exemplo, do produtor Harvey Weinstein, durante anos.

Vestir algo diferente do preto não cairia bem. Se pensarmos de forma crítica, sim, muitos artistas sabiam do comportamento do Weinstein e tinham conhecimento de como as “coisas funcionam” nesse mundo hollywoodiano. Denunciar, se posicionar contra esses comportamentos não é algo fácil. Demanda coragem e não é todo mundo que tem. Mas a sociedade está em um processo de mudança, onde juntos as minorias são mais fortes.

A grife Marchesa, uma das queridinhas das atrizes para eventos de tapete vermelho até o ano passado, ficou de fora desta edição do Globo de Ouro. A grife pertence a estilista e ex-mulher do produtor acusado, Georgina Chapman, que não compareceu ao evento. Vale ressaltar que a designer e o produtor se separaram em outubro de 2017, quando as denúncias contra o produtor explodiram. Sendo assim, grifes e estilistas desconhecidos apareceram, como no vestido Kaufman Franco, de Yvonne Strahovski, atriz da série Handmaid’s Tale, ou no Giambattista Valli, da modelo Kendall Jenner.

A moda engajada

2017 foi marcado por protestos nas semanas de moda. A Dior lançou a campanha “We should all be feminists”, que invadiu não só as passarelas como também as ruas. A frase é o título de um discurso, publicado em 2014, pela escritora feminista Chimamanda Ngozi Adichie (não deixe de ver!), com a qual Maria Grazia Chiuri, diretora criativa da Dior, compartilha convicções.

Já ação batizada de Tied Together (amarrados juntos), um lenço branco amarrado no pulso, foi criada pelo Business of Fashion para movimentar a indústria da moda em solidariedade a imigrantes e minorias durante a temporada de moda internacional, aproveitando o engajamento para angariar fundos em prol da União Americana pelas Liberdades Civis e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. A estreia de Raf Simons a frente da Calvin Klein, contou com as famosas e disputadas gift bags contendo exatamente os lenços de algodão, agora símbolo de um movimento.

No desfile da Creatures of Comfort, no primeiro dia de NYFW de 2017, uma modelo riscou a passarela com um moletom com a seguinte frase de inclusão: “We are all human beings” (somos todos seres humanos). A grife do estilista Christian Siriano desfilou camisetas com a frase “People are People” (pessoas são pessoas).

No cenário nacional, o estilista Ronaldo Fraga aproveitou o seu desfile na São Paulo Fashion Week do ano passado, para protestar contra o decreto do presidente Michel Temer que extinguia uma reserva mineral na Amazônia. O designer mineiro usou uma camiseta com os dizeres “Mr. Presidente, se você não pensa no Brasil, pense nos netos do Michelzinho”.

O que esperar em 2018?

É certo afirmar que as mulheres – e as minorias – estão procurando o seu espaço. Cada vez mais vemos ações que buscam unir e defender causas que até então eram vistas como “normais”. Apesar de pensamentos reacionários estarem ganhando voz nas redes sociais, percebemos que mulheres, gays, negros e imigrantes estão lutando, cada vez mais, por seus direitos.

Em 2017, a Noruega aprovou a equidade salarial entre os jogadores das seleções femininas e masculinas. De acordo com a Federação, os jogadores aceitaram reduzir os seus salários para que as mulheres pudessem receber um aumento. Enquanto no Brasil, não temos um “Campeonato Brasileiro” voltado para os times femininos, quiçá esperar que os salários dos jogadores das nossas seleções sejam o mesmo. Talento, podemos confirmar que as meninas têm de sobra.

Outro exemplo é a Islândia que se tornou, no dia 1º de janeiro, o primeiro país do mundo a colocar em vigor uma lei que legaliza a igualdade de salário entre homens e mulheres.

Representatividade importa, mesmo que pareça algo pequeno. As mudanças não acontecem da noite para o dia, é preciso que cada um faça a sua parte e “todo pouco” que é feito acaba tornando-se algo grande. Não dizem por aí que “a união faz a força”?

Particularmente, encontrei na moda – e nas palavras – uma forma de me expressar. Tenho consciência que, sozinha, eu não irei mudar o mundo. Mas, se eu puder convencer uma única pessoa a olhar para o lado, para o outro, a olhar para uma peça de roupa X e enxergar mais, eu me sentirei bem. Aprendi nos últimos anos que eu me visto para mim e isso me libertou para aspectos pessoais. Deposito nos meus tênis, camisetas divertidas e shorts, a minha liberdade de expressar o que eu quero ser. O que eu acredito. E, por mais que eu ainda esteja tentando me encontrar nesse mundo, eu tenho uma certeza: não é a opinião alheia que irá me definir e eu sempre levantarei a bandeira da moda como a união de uma variedade de significados. Se para muitos a moda é ditadura, para mim, ela é liberdade.

Bruna Guimarães

Bruna Guimarães

Jornalista & fashion lover. Made in Aracaju, living in São Paulo. Acredita que o amor é sempre destino e glitter, uma segunda pele. Louca por carnaval e mar e sorrisos e pessoas interessantes.
Bruna Guimarães

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *