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Morte

Morte | Public Domain

Ontem, 15/9, o ator Domingos Montagner morreu e me trouxe, mais uma vez, uma reflexão sobre a morte. Eu não acompanhei o trabalho do ator, muito menos o conheci pessoalmente, mas essa comoção geral me fez pensar.

Hoje, fazendo uma coisa e outra com a TV ligada no programa da Fátima Bernardes, ouvi a psiquiatra convidada falar que “morte é questão de ponto de vista pra cada cultura, cada religião, cada pessoa”. Isso me relembrou algo que Walter Benjamin, em Magia e Técnica, Arte e Política, diz. O autor explica que essa vivência na sociedade urbana industrializada ocidental traz um esquecimento da morte (entre outras coisas) que normalmente nos trazia sentido. E é verdade.

Hoje em dia, os velórios não acontecem mais nas casas dos familiares, como costumava; existem empresas que os fazem. Todo o processo para o sepultamento está cada vez mais distante da família. Se você parar para pensar, o sentido se perde um pouco, né? O processo vital natural já não é o mesmo. É por isso que o valor da vida está cada vez menor: porque não existe mais um contato real com a morte.

Isso é interessante, a meu ver, porque as pessoas sempre me questionam o porquê de minha “morbidez”, do preto em todas as vestes, das caveiras, dos meus posicionamentos “estranhos”, da escuridão e por aí vai.

Eu sempre tive certa dificuldade de explicar com minhas palavras, mas encontrei na subcultura da qual me considero parte uma explicação excelente. Kipper, em A Happy House In A Black Planet: Introdução à Subcultura Gótica, diz que não é nenhuma surpresa a existência de um subcultura que faz questão de “se” lembrar da morte e do “carpe diem”, valorizar a vida constantemente.

A subcultura gótica é mais saudável e integrada do que a cultura econômica dominante, visto que esta última se aliena e até cinde com realidades vitais e vitalizantes.

Então, não, não é uma questão de querer morrer, depressão, satanismo ou desvalorização da vida. É o oposto: uma retomada dos aspectos da vida mais rejeitados, socialmente falando. É necessário viver entendendo que a morte chega pra todos. Trágica ou não. Não quer dizer que não doa, que não haja sofrimento, afinal somos todos seres humanos.

E o viver mais intensamente é uma forma de dizer pra morte, quando ela chegar, um “pode me levar” sem arrependimentos.

Lohan Montes

Lohan Montes

Jornalista de formação, descobriu que as letras estrangeiras lhe faziam mais sentido, mas nutre uma paixão irremediável pela psicologia. Diagnosticado com nictofilia aguda ainda na infância, vê beleza no lado escuro da vida, encontra paz nos gritos de Diamanda Galás e sonha em um dia escrever como Stephen King.
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