Mudei de time • We Love

Mudei de time

Jen Aniston | Divulgação

Eu sempre fui do time Angelina. Mais divertida, mais complicada, mais audaciosa e, a meu ver, mais bonita. Achava a Jen uma chatinha. Caretinha, loirinha, comportadinha. Uma coisa “bela, recatada e do lar” que nunca apelou pra mim. Para piorar a situação dela – afinal, ela deve ter passado noites a fio pensando em como é que eu podia preferir Angie a ela – eu detestava a Rachel. Ô mulher chata. E burra que nem uma porta. Socorro.

Mas aí ela foi lá e disse que “não está grávida, está de saco cheio” e que uma mulher é “completa com ou sem parceiro, com ou sem um filho” e mandou  o mundo inteiro se catar.

Mudei de time.

Em tempo, ela também chamou todos os obcecados por sua vida pessoal de rasos “…nessa última rodada de notícias sem graça a meu respeito houve tiroteios em massa, incêndios, decisões importantes da Suprema Corte (Americana), uma eleição está por vir e mais um sem-número de assuntos merecedores de ser pauta aos quais os “jornalistas” (ela escreveu entre aspas mesmo) poderiam dedicar seus recursos.” Estava mais do que na hora de alguém falar sobre o tempo e espaço dado a “notícias” de celebridades, não?

Mas não foi por isso que eu virei Team Jen. Já faz algum tempo que famosas falam sobre o quanto a mídia não ajuda as mulheres a encontrarem um pé de igualdade com os homens socialmente. Já ouvimos argumentos de cientistas, artistas, políticas, empreendedoras, empresárias e celebridades sobre o “empoderamento” feminino.

Pop up mental: odeio essa palavra empoderamento. Primeiro, porque não existia e algum besta traduziu do Inglês e mesmo em Inglês soa horrível. Segundo, porque mulheres não precisam de poder, precisam de respeito mesmo. Terceiro, porque soa horrível. Simples assim.

Fecha pop up mental.

Com toda essa atenção recente às mulheres, especialmente passando por aumentar as oportunidades profissionais e diminuindo essa obsessão mundial com o corpo perfeito para não agredir as meninas, acho que esqueceram de nós. Das “tias”. Eu não tenho mais idade para ter obsessão com o corpo da Gisele – sento ali, ao lado do pôster dela no Frevinho do Iguatemi e ataco meu beirute com batata frita sem medo de ser feliz. Também não preciso ter oportunidades profissionais; criei as minhas e sempre batalhei por dar mais a outras mulheres mais jovens.

Mas, de novo, é porque eu “passei da idade”; já cheguei ao ponto em que não é o que eu preciso conseguir e, sim, o que eu posso proporcionar que vai me definir como feminista. Se eu acho que tive obstáculos profissionais por ser mulher? Claro. Se eu já fiz regimes idiotas? Não há dúvidas. Se eu queria ter o corpão da Gisele? Em-que-planeta-você-acha-que-eu-vivo? No entanto, minha batalha enquanto mulher hoje é outra: preciso que as pessoas entendam que não tem nada de errado comigo só porque eu não sou o padrão que alguém espera que eu seja.

Sim, já que tanta gente me pergunta (bem menos que à Jen, óbvio) eu também acho um desperdício eu não deixar herança genética e acho que o mundo seria melhor se uma mini-Fefa ou um mini-Fefo viessem a habitar o planeta. Acho que eu deveria congelar meus óvulos só por isso. Vai que faltam gênios esclarecidos daqui a 40 anos? Melhor eu fazer a minha parte.

Pop up mental. Se alguém achar um homem de boa estrutura óssea, sem indícios de colesterol, pressão alta ou diabetes, sem histórico familiar de doenças genéticas, com QI acima da média que deseje misturar seus genes aos meus, por favor, inbox. Só quero os genes, não penso em dividir a guarda do espécimen. Vlw.

Fecha pop up.

Brincadeiras de herança genética à parte, o fato é: eu também fico de saco cheio desses rótulos e a Jen marcou um ponto que nenhuma outra mulher tinha ainda marcado. (Ao menos, não alguém que conseguisse a atenção que ela conseguiu.)

Fico de saco cheio de ver amigas e conhecidas inteligentes, independentes, lindas, bem-sucedidas em suas vidas profissionais, cheias de amigos e familiares bacanas em volta às vezes voltarem ao assunto e se sentirem obrigadas a rir de memes da Internet do tipo “sou solteira porque sou over-qualified”.

Numa boa? Eu tô solteira porque os homens de hoje andam muito chatos. Só isso. Eu não tive filhos porque não rolou. Só isso.

E eu sou tia com muito orgulho. Do Teo e da Elena. Da Alice, do Tomás e do Andre. Da Alice carioca. Da Carol e do Pedro. Da Lele e do Joca. Do João e do Antonio. Das Malus e do Damian. Sou tia até de uns marmanjos; do Tuco, da Fe e, mais recentemente, da Mari. E, nunca, nenhum deles me criticou ou me questionou porque eu não tenho filhos e não tenho marido e moro sozinha. Esses, que, por direito me chamam de tia (Fe e Mari não chamam e podem continuar assim, tá? Fefa, tá ótimo!), são os que me aceitam como eu sou, não fazem aquelas perguntas desagradáveis de reuniões de família e jantares em grupos grandes: e aí, cadê o namorado? Poxa, você não pensa em ter filhos? Já congelou os óvulos?

E as pessoas que têm filhos e, por isso, acham que são superiores? Conhece? Não pedem desculpas se a criança está urrando no avião – afinal, estão perpetuando a espécie. Dizem que você não entende o mundo como elas, “afinal você não tem filhos”. Ou deixam de te convidar para um jantar para não ter número ímpar na mesa. Pensando bem, eu acho que já deixei de convidar pais recentes pra jantar porque eles não sabiam falar de nada além do bebê. #confessei

Mesmo a Bridget Jones, que foi a estrela desse movimento quando 30 ainda eram 30, porque agora 40 são os novos 30 (e não sou só eu que digo isso) queria se casar. No final, ela era diferente e única, mas queria obedecer às regras.

Foi por isso que mudei de time. Jen, com um texto, um desabafo, colocou em discussão mais uma ofensa inaceitável para mulheres. #GoJen

Fefa

Fefa

Administradora, wannabe escritora. Tenho alergia a quem usa muito jargão, acha que design thinking é novidade e não respeita o tempo dos outros. Se eu pudesse viajar no tempo e conhecer uma pessoa, essa seria a Rainha Elizabeth I.
Fefa

Comments

  1. Daniela Gragnato

    Quando digo que não tenho filhos e não terei, porque não quero, geralmente as pessoas me olham como se estivessem vendo um alien – algumas mulheres me olham com desprezo, como se o fato de não querer ser mãe fosse um indício de maldade ou coisa assim. E me enchem de clichês como “ah mas você precisa experimentar o amor incondicional”. O que eu preciso é de espaço para tomar as minhas decisões sem pressão! (E amor incondicional existe em outras fontes, basta procurar). O pior é que a grande maioria destas mulheres – a verdade tem que ser dita, homem não se mete assim na vida alheia… – está enlouquecida com o acúmulo de funções e frustrada por não dar conta, ou como mãe ou como esposa ou como profissional ou com o conjunto todo da obra. Acho que o papel da mulher mudou, de novo, não lá nos anos 60, e essa nossa geração (que hoje tem 40) ficou no meio, sem boas referências para definir o que quer ou espera da vida.

  2. Crianças são interessantes! Inocentes, cheias de perguntas e necessidades constante da sua presença. Às vezes são irritantes, mas na sua maioria são muito divertidas, ainda mais quando encontram adultos disposto às suas e brincadeiras. Aprendi muito com as crianças. “Se não as tê-las, como sabê-las?”
    Fefa, gosto muito dos seus escritos. Um abraço.

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