(Não) coisas de pai e filho – We Love

(Não) coisas de pai e filho

Sempre senti inveja dos meus amigos brincando, se divertindo e assistindo aos jogos de futebol com os seus pais. Muita inveja mesmo, já que na minha casa isso era algo impossível de acontecer. Não que não estivesse passando jogos ou não tivéssemos tempo livre, não acontecia por um único motivo: meu pai.

Meu pai é um cara rústico, bruto e de poucas palavras. Quando criança bastava um único olhar para que eu ficasse congelado de medo e parasse o que estava fazendo e me recolhesse ao meu quarto. Entendo que ele teve uma criação difícil e uma infância idem, mas não seria o caso de fazer uma história diferente da que teve? Talvez. Mas para ele bastava que a comida estivesse na mesa e eu tivesse onde morar e estava tudo bem. Para mim, não. Eu queria mais. Eu queria amor, conversas, abraços, beijos, carinho, palavras de afeto. Mas eu não tinha. Da sua boca só saiam poucas palavras, quase todas ordenando alguma coisa.

O tempo foi passando e os seus atos me afastavam cada vez mais dele. Já não éramos mais pai e filho. Éramos comandante e comandado. E aos poucos fui percebendo que eu não fazia mais questão de ter um pai. Eu não me importava mais. Tinha cansado de ser um bom filho, de querer que ele sentisse um mínimo de orgulho das minhas vitórias. Cansei de lhe contar algo bom que havia acontecido comigo e receber um: “Não fez mais que sua obrigação”.

Já adulto, fui embora de casa sem olhar para trás e nunca mais voltei. Mas volta e meia me pego pensando em como seria bom bater uma bolinha, tocar umas músicas para ele cantar ou assistir um jogo ao seu lado. Penso e choro cada vez que lembro do que não tive, mas enxugo as lágrimas ao saber que eu fiz tudo o que podia.

Recordo o dia da minha formatura, onde mais do que nunca gostaria que ele estivesse presente e vendo de perto o que ele sempre quis: ter um filho formado. Mas ele não entrou, preferiu ficar no estacionamento esperando a minha mãe e irmã. Não teve abraço, não teve parabéns, não teve foto pro álbum. Só teve um imenso vazio.

Hoje estamos mais afastados do que nunca. Dois cabeças duras. Cada um com sua história, sua dor e seu fardo para carregar, frutos das escolhas que fizemos. Eu não quero o seu perdão e não acho que deva perdoá-lo de algum modo. Também não vou dizer que não o entendo, eu entendo. Apenas não aceito. Talvez nunca aceitarei, já que tudo o que eu fiz foi para um dia ele ter orgulho de dizer: “Esse cara aí, esse moleque é o meu filho”. E ele nunca disse.

Robson Santos

Robson Santos

Publicitário, poeta de boteco, odeia sushi, ama filmes de máfia, tem TOC's, vive por música e não sabe a razão de escrever em terceira pessoa. Descarrega suas emoções no letraslorotaseleriados.tumblr.com
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Comments

  1. Caramba….Isso se passou com vc mesmo!? Sabe eu tenho uma história muito parecida….Mas sabe o mais importante eh vc se perdoar e não guardar mágoas. …

    Levei anos para entender isso….Mas consegui fazer isso e sinto tranquilo comigo mesmo…

    Espero que você encontre o perdão para você mesmo e não para o seu pai.

    Abs

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