Não estamos aqui para ser felizes (mas podemos ser) • We Love

Não estamos aqui para ser felizes (mas podemos ser)

Ilustração: Bruno Martins Cabral

A felicidade não está nos seus sonhos, pois eles podem nunca se realizar. Parece duro. É duro. Uma das primeiras frases que ouvi quando busquei ajuda psicológica para tratar o início de um transtorno de ansiedade foi: a vida é dura!

Mas aqui vai uma notícia boa, porque esse texto não foi feito para desencorajar ou estimular ninguém a permanecer em um fundo de poço: a felicidade é uma escolha.

Na minha mentalidade, antes de acontecer todas as minhas crises de ansiedade e entrar nessa eterna montanha-russa, a felicidade era viajar.

Eu sempre fui uma pessoa extremamente fria para o sentimento alheio ou até mesmo para os problemas dos outros ou dos meus amigos mais próximos, mesmo sem eu perceber. Viajar era como se eu pudesse me livrar de tudo e ser um personagem diferente. Eu tive a oportunidade de ter tantas experiências magníficas, que poderíamos parar esse texto aqui, como o menino que resolveu a vida viajando – mas as viagens, com o tempo, vão virando apenas lembranças e fotos em um perfil de Instagram. Eu permanecia sentindo um vazio, uma ânsia por mais.

Era o mesmo vazio que eu sentia quando estava namorando, mas queria ficar solteiro, pois não me sentia completo, e quando ficava solteiro, queria me relacionar com alguém, pois me sentia só. Era o mesmo vazio que eu sentia quando estava trabalhando e queria pedir demissão por não achar que aquele era meu emprego dos sonhos, e quando estava desempregado, ficava louco em busca de qualquer nova oportunidade. E, por estar nesse eterno vazio, qualquer pequena janela parecia a rota de fuga perfeita para eu finalmente ser feliz, completo: poderia ser uma pessoa, ou um emprego, ou finais de semana badalados em festas, ou um objeto que eu queria comprar, ou mais uma viagem para sei-lá-onde só porque eu simplesmente vi algumas fotos no Google e achei que daria ótimas fotos no meu Instagram.

E foi nessa experiência frenética de buscar em outro alguém ou em outro fator externo a resposta para meu próprio vazio, que eu me tornei uma pessoa que simplesmente estava olhando tanto para frente e para os lados e para o que eu não tinha, que eu percebi que estava machucando não só aos outros ao meu redor, como a mim mesmo. Estava me enganando em um conceito falso do que era amor e o que era felicidade. Estava desconectado com o presente.

Me ver nesse momento, onde tudo que eu buscava era como açúcar se dissolvendo em água, foi quando a ansiedade me atingiu e me pôs para baixo do trono que eu achei que sentava, com minha armadura e um falso amor-próprio vestido de egocentrismo, de ganância e de achar que a felicidade estava lá fora. No momento que eu despertei para isso, minha única vontade era sair correndo, pedindo desculpas para todos, querendo que tudo desse certo e que eu pudesse apagar da memória do mundo minhas falhas e que eu pudesse voltar no tempo e de repente acordar e ver que agora eu era uma pessoa nova, forte, bem resolvida. Mas seria mais um erro: o perdão que eu precisava antes de tudo, era o meu perdão para comigo mesmo. O perdão mais sincero que eu poderia dar. Parece patético falando agora, mas eu lembro que na minha última derradeira crise, com lágrimas nos olhos, eu olhei para mim no espelho e falei: eu te perdoou, você já sofreu demais. Eu te perdoou.

E foi libertador. Não curou minha eterna sensação de ansiedade, de pensar no passado demais, ou pensar demais no futuro, mas me vez me ter um carinho em mim tão grande que quando chegam as dores, eu olho para ela, como uma pessoa, uma materialização dos meus medos e falo: eu sou tão grato por você ter existido, pois sem você, eu nunca teria aprendido.

Hoje eu valorizo desde o ar que respiro a um dia de céu bom que posso ir para a praia ver o mar e sair comigo mesmo, pela oportunidade de todo dia poder acordar cedo e caminhar no bairro, pelos “bons dias” que recebo no caminho, por ver pessoas fazendo o bem ao próximo, pelas pessoas que me ensinaram do modo delas a diferença de amor próprio e egocentrismo, agradeço pela minha força de vontade de começar uma terapia, de me forçar a fazer cursos na minha área, de poder ter tempo a fazer coisas que eu gosto. Ah, e as viagens? Eu ainda quero fazê-las. Mas na próxima vez, eu vou estar lá, totalmente.

Bruno Martins Cabral

Bruno Martins Cabral

Um clichê ambulante. Publicitário chegando aos 30, irmão de três garotas incríveis, um talento nato para se levantar das quedas, ilustrador nas horas vagas, perseguidor incansável das lições da vida e colecionador dos momentos únicos. Uma bagunça deliciosa feita de viagens, lágrimas, relacionamentos, fugas da zona de conforto e crushs imaginários.
Bruno Martins Cabral

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