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Não existe democracia sem imprensa livre

Foto: Letícia Rodrigues (@framelet)

Foto: Letícia Rodrigues

Eu fiz Jornalismo na faculdade.

Exerci pouquíssimo e estudei brevemente o campo também; acabei indo para outras searas da comunicação social, muito menos sociais ou importantes na minha opinião. Mas, das experiências que vivi, conservei algumas memórias.

Eu tinha acabado de sair da faculdade quando fui entrevistar uma senhora de 70 e poucos anos que estava na Justiça contra a prefeitura da cidade de Aracaju. Uma senhora italiana de nascença, brasileira de coração, contra uma cidade inteira. Eu não tinha tempo algum para ir até ela, porque, provavelmente, você já deve ter ouvido sobre a escassez de recursos a qual a imprensa foi submetida desde o surgimento da Internet. Éramos uns jornalistas; eram milhares de notícias. Precisávamos escolher o tempo todo o que era digno de foco ou de uma história. E eu escolhi essa senhora. Queria ouví-la. Ela reclamava dos danos causados à sua propriedade por uma obra pública. Quando fui até ela, ela mostrou a casa inteira. Canos rompidos, vidros quebrados, o odor de todos os cômodos. Sentamos para tomar um café depois. Ouvi sobre a imigração da sua família, sobre as dificuldades da morte do marido e de ser uma “mulher velha e sozinha”. Ela se emocionou algumas vezes diante do que ela considerava uma “impotência sem tamanho” e eu, que nunca guardei lágrimas, me emocionei junto. Ela rendeu uma matéria de meia página à época, não tão digna de tudo o que aprendi naquele dia. Contudo, ela foi ouvida. E me ligou para agradecer. Em sua fala: “nunca me senti tão importante na vida”.

E isso é o que o jornalismo representa na sua essência mais pura: a oportunidade de dar voz às pessoas. Ameaçá-lo significa calar a sua voz também, porque, sozinho, você nunca conseguirá ser ouvido.

De fato, o mundo se transformou e todos somos capazes de produzir histórias. Mas, depois de termos vistos exemplos tão claros de impostores abusando da fé alheia, mais do que nunca precisaremos da imprensa livre para atuar como o que alguns estudiosos chamam de “quarto poder” (ou contra-poder), um pilar social fundamental que funciona como o cão de guarda da sociedade.

Existem leis específicas de responsabilidade que regem a profissão. Não é permitido, em hipótese alguma, produção de “fake news”. O que existe é abordagem tendenciosa sobre um lado da história, até porque estamos falando de grandes grupos financeiros parte do sistema que nos rege. Mas, quase sempre – salvas raras exceções -, o fato está lá, porque é a mídia quem apura, investiga e leva a conhecimento público aquilo que precisa ser ouvido.

Como o relato da senhora de 70 e poucos anos que enfrentava uma cidade inteira. Ela precisou de apoio.

Foi o jornalismo que deu voz a ela e não você.

Adler Berbert

Adler Berbert

Editor do We Love. Jornalista, curte frases de efeito, acha que sabe jogar vôlei e está viciado em tirar fotos de anúncios nos postes da cidade. No colegial, foi expulso da banda marcial por não ter ritmo, mas ainda continua acreditando que tem potencial musical.
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