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Não se ama em linha reta

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Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, com sua voz doce e potente suplicou em uma das suas mais adoradas canções que o que ele desejava para a vida era “a sorte de um amor tranquilo” – que nunca veio. Entre amores exagerados e paixões inventadas, o compositor e cantor ficou conhecido pelos breves casos românticos, cuja própria mãe, em uma entrevista, confirmou: “ele não se entregava ao amor, tinha medo de se machucar; dizia para mim que amar queria dizer sofrer”. O sábio jovem adulto que nos deixou aos 32 anos, hoje, teria 60; provavelmente, aposentado em algum sítio no interior do país, teria descoberto o aconchego de algum abraço que topara carregar suas dores consigo e escreveria um álbum novo completo sobre tudo o que reaprendeu sobre o amor. Porque nada no mundo grita por mais movimento do que amar.

Amar não é a estagnação da cerca branca de uma casa impecavelmente limpa; amar é a mobilidade de um apartamento ao lado da linha de metrô, que vibra a cada trem que passa, mesmo que você esteja rogando por sossego e paz.

Amar não é um balanço no quintal, que vai e você sabe que vai voltar para o mesmo lugar. Amar é um carro controlado por alguém que acabara de tirar a Carta, cujo caminho vai sendo traçado conforme habilidades motoras; e não pelo que é mais fácil.

Amar é desgovernar, é falta de padrão e descontrole; podendo ser desperdício também: de espaço, de energia, de esforço, mas nunca de tempo. Tempo, não! Quando você ama, você sempre está ganhando nesse planeta. Porque amar é perpetuar um pouco de você por aqui.

Boa parte desse inestimável tempo a gente gasta tentando, de forma egoísta, se impor ao outro. Gritando, em vez de sussurrar frases clichês de amor no ouvido. Pulando – não de euforia –, mas de ansiedade por tentar segurar um monte de verdades que não deveriam ser ditas em voz alta. Ou descontando a frustração de não ter um desejo concedido em um objeto inanimado, que, às vezes, chega a perceber a sua loucura e te retorna com um pouquinho de entendimento. “Deita aqui; eu te entendo”, falou o travesseiro.

Eu detesto autoajuda, mas um desses gurus do mundo moderno falou a melhor coisa que ouvi nos últimos tempos: “a gente enxerga todo e qualquer sentimento negativo como problema, um revés”. E o “problema” desse “problema” é que sentimentos negativos nunca deixarão de existir. Eles estão ali; e sempre estarão, mas não para nos prender atrás e, sim, para nos lembrar que felicidade tem um preço: a referência do que não te fez feliz.

Sempre seguiremos em frente quando se ama. Desviando de vales e montanhas, desnorteados pela neblina que acompanha o asfalto, e prestando atenção às placas que sinalizam o caminho. Mas nunca, em hipótese alguma, pararemos. Porque, nessa estrada, não existe acostamento.

Adler Berbert

Adler Berbert

Editor do We Love. Jornalista, curte frases de efeito, acha que sabe jogar vôlei e está viciado em tirar fotos de anúncios nos postes da cidade. No colegial, foi expulso da banda marcial por não ter ritmo, mas ainda continua acreditando que tem potencial musical.
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