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Ninguém é uma coisa só

ninguém é uma coisa só | pexels

Foi assim, no intervalo de um curso, que ouvi a famigerada pergunta:

– E seu bebê, cadê?

Esse tipo de pergunta raramente envolve alguma preocupação. No fundo, só dá conta de uma curiosidade sobre a vida pessoal dessa mulher – se ela é separada, se o pai é presente e participativo, se ela optou por continuar trabalhando ou não… Na pior das hipóteses, você também pode fazer essa pergunta exatamente para aquela mãe que sofre alienação parental ou para aquela que perdeu um filho.

Há 10 anos, desde o momento em que o Gui saiu da minha barriga, essa questão me persegue. Não é à toa que dizem: quando nasce uma mãe, nasce uma culpa – e talvez umas receitas azuis.

Quando você faz esse tipo de pergunta, você também afirma para ela – e para o mundo – que mãe só pode ser uma coisa: mãe. Você afirma o que Cazuza cantava há mais de 30 anos: só as mães são felizes, não podem mudar a vida. Mãe não vive, não trabalha, não estuda. Mãe é mãe – e só. Deve se dedicar apenas aos filhos e não pode – nem deve – pensar em fazer qualquer outra coisa da vida, mas também não pode: receber pensão, ser sustentada pelo marido, deixar de se cuidar, não perder o peso da gravidez, ter estria, ad infinitum...

Quando o Gui nasceu essa e outras perguntas eram incômodas. Eu sorria e dava uma daquelas risadas forçadas que fazem a gente ter enxaqueca mais tarde. Até que em uma crise louca de dor, quando ele tinha 8 meses, sai do pronto socorro com 3 caixas de Rivotril.

No meio disso tudo, adorava quando me chamavam de “corajosa”. Depois que se é mãe, essa palavra sempre tem um tom passivo-agressivo, do tipo: “como você é CORAJOSA por deixar seu filho com a babá/na escolinha/com os avós/o pai!”. E, de novo: esse tipo de comentário raramente envolve algum tipo de preocupação, porque essas são as mesmas pessoas que nunca vão se oferecer para olhar o bebê enquanto você vai no salão fazer a unha, fazer um curso de inglês ou até… Tomar um banho com o box fechado sem balançar o carrinho com uma da pernas enquanto passa shampoo.

Eu não sou só a minha profissão (ainda bem!). Não sou só a minha formação – que até hoje não entendi muito bem. Não sou só uma pessoa que passa 2/3 do sábado estudando cristais, menos ainda alguém que medita, faz yoga e lê sobre medicina ayurvedica. Sou também alguém que xinga (e buzina!) no trânsito, se irrita com aquele grupo de pessoas que consegue utilizar a calçada toda para caminhar lentamente impedindo qualquer um de ultrapassar. Vezenquando, sofro com participações especiais de um elefante travestido de Globeleza e leio, ao mesmo tempo, Orwell e livros de negócios. Depois, pego uns livros tipo Melancia e Sushi pra dar uma aliviada no cérebro.

Depois de algumas cervejas chocas, às vezes dou umas militadas na mesa do bar – mas me peguei rindo de umas piadas meio preconceituosas e bairristas na minha última ida ao circo. Falo (e faço) umas burradas e tudo bem. Ninguém é uma coisa só – nem mãe. 

Ana Sasso

Ana Sasso

Editora do We Love. Pensa alto, fala sozinha e rabisca em papéis pelo caminho. Quando não está escrevendo, está pensando no que vai escrever. É jornalista, mas vive entre contar e inventar histórias aqui.
Ana Sasso

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