Ninguém precisa de escritores, a menos que... • We Love

Ninguém precisa de escritores, a menos que…

Ninguém precisa de escritores, a menos que...

Uma vez, li na autobiografia de uma escritora um texto de um outro escritor que dizia que escreve com dois dedos e ama com a vida inteira. A escritora, Milly Lacombe, e o escritor, Antonio Maria, têm em comum muito pouco. Comigo, menos. Penso sempre na escrita: de onde veio?

De tantas coisas que eu poderia ter sido, entre o mundo astronômico e uma catástrofe qualquer que poderia ter sido evitada caso eu quisesse ter me tornado uma policial civil tático-operacional, escritora. Ninguém nunca precisa de um escritor. Um avião em chamas não precisa de um escritor. Uma sala lotada de pronto atendimento não precisa de um escritor. Um sangramento ininterrupto não precisa de um escritor. Uma dívida colossal não precisa de um escritor. Ninguém liga pra o escritor a não ser que sofra. E precisa ser muito. Pra pouco sofrimento, um ombro basta. E uma caixa de Cataflan. Para o restante, haja palavras. Muitas. Extensas. Ininterruptas.

Numa longa tentativa de explicar, compreender e (ninguém nunca admitirá, mas vou dizer) prolongar a tal da dor, leem. Leem escritores sofridos, daqueles clássicos que provavelmente fumam cigarros de filtro vermelho e bebem conhaques daquela garrafa que custa menos de um mico leão-dourado que você sabe bem o nome. Esses escritores caricatos que ninguém admite que gosta – e que os escritores que não têm bem essa característica jamais admitiriam que queriam ser.

Nunca quis.

Sempre quis ser mais Adélia Prado do que Caio Fernando Abreu: Adélia vê flor em pedra, poesia na cor, na vida que rege a existência de quem ama com o peito aberto. Adélia fala tão bonito daquilo tudo que a gente não sabe muito bem como falar. A gente aprende a viver a alegria. Beber pra comemorar. Beijar uma boca amada, com o beijo mais gostoso do mundo. Abraçar mais apertado. Respirar mais fundo o ar, mesmo que não tão limpo assim. Levantar os braços e gritar. A gente aprende a comemorar, a sorrir, a comemorar. A gente só não sabe falar muito bem sobre a alegria. Alegria não rima.

Escritor não aprende a falar de bonança. A gente é especialista em lamentar, em elencar motivação pra poesia que rima amor com dor. A gente aprende até a justificar os colegas sem muita criatividade que desgastam as frases que ainda, nessa altura do campeonato, combinam o pesar com qualquer verbo infinitivo terminado em “ar” com conotação sofrível. A vida é sofrível por si só, o escritor a interpreta e prolonga. Nosso trabalho é prolongar.

Eu nunca entendi por que esse virou o meu. Logo o meu. Nunca entendi direito por que eu. Nunca entendi direito de onde veio. Nunca entendi direito. Mas não abro mão das minhas palavras. Não abro mão do que sai daqui. Deve ser por isso que de vez em quando a mão volta. Fechada. Num soco. Na minha cara. E eu aceito. Sorrindo. E depois escrevo. Sangrando. E sempre, sempre, sempre me recuso a estancar.

Gi Marques

Gi Marques

Sou a poesia da contradição de tênis e batom vermelho escrevendo histórias que vivi e inventei (qual é qual já não dá pra te contar).
Gi Marques

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