O ano em que aprendi a perder • We Love

O ano em que aprendi a perder

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Que lugar confortável é o sofrimento. Requer dor sair dele. Requer egoísmo desejar ser feliz mesmo em tempos de dor. 

Por ser filho de pais separados, por ter sofrido muito durante minha época de estudos e por ser gay e nunca ter me sentido acolhido, nem mesmo pela própria comunidade LGBTQ+, por muito tempo, eu sempre pensei que a vida me devia algo. Que a vida ainda iria me recompensar por tudo e que, por isso, eu poderia me entregar a dor, pois boiando no mar das minhas próprias angústias, o acaso iria me levar pra terra firme.

A vida não deve nada para mim, a vida não deve nada para ninguém. 

Há alguns anos, quando meus avós morreram, eu senti, mais que nunca, que era inferior. A pior pessoa a existir na terra.

Me questionava se eu tinha sido um bom neto, o quão deveria ter sido mais presente nos últimos anos e que imagem eu estava passando diante da minha família. Mas nada, nem mesmo toda a dedicação que eu poderia explorar para com a minha família, evitaria o fim do ciclo dos meus avós.

Sua morte foi um ensinamento para estar mais perto da minha família, ser mais amigo de meus pais e ser mais irmão das minhas irmãs.

A culpa era como se eu sentisse prazer em cutucar uma ferida que eu mesmo causei diante dos fatores da perda. Eu não sabia perder. Não sabia entender que a vida não iria me recompensar pela dor.

Eu perdi tanto nos últimos meses. Perdi a ilusão de um namoro que deveria ser o conto de fadas que todo garoto gay de 14 anos sonha para me deparar com um relacionamento que não me vestia. Tive que encarar o desaparecimento da minha cadelinha, onde não pude me despedir. Tive que aprender a abrir mão de um emprego confortável financeiramente, por me sentir estagnado.

Hoje, tive que aprender a me despedir do meu gato, um bicho que só queria viver e ser amado, mas que teve um ciclo tão curto.

Tive que aprender que a importância das coisas vem com o preço do fim. Tudo é efêmero, a gratidão dos acontecimentos que não duram é o que preenche a dor,  celebrar as perdas por simplesmente ter acontecido.

Meu coração dói, a alma pesa, a falta vira lágrimas. Mas o sorriso vem. O agradecimento por ter sido completo, mesmo em um prazo curto.

Eu vou perder. Talvez eu perca tudo. Um dia, de uma forma ou outra, tudo irá embora. Eu agradeço pelos ciclos que formam e mudam o meu. Eu agradeço pelas perdas e pelos seus ensinamentos. Eu respeito e agradeço ao fim, pela chance de ter deixado eu ter um começo.

Bruno Martins Cabral

Bruno Martins Cabral

Um clichê ambulante. Publicitário chegando aos 30, irmão de três garotas incríveis, um talento nato para se levantar das quedas, ilustrador nas horas vagas, perseguidor incansável das lições da vida e colecionador dos momentos únicos. Uma bagunça deliciosa feita de viagens, lágrimas, relacionamentos, fugas da zona de conforto e crushs imaginários.
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