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Fazer o bem incomoda

catíneos

O fato é que fazer o bem incomoda. Não importa o que você está fazendo, se for algo para ajudar, as pessoas se irritam, perseguem e infernizam sua vida. Para mim, o motivo é muito claro: infelicidade.

É comum encontrar atitudes, assuntos e até causas que incomodam, mas se isso traz um sentimento muito exacerbado de descontentamento a ponto de alguém se sentir no direito de interferir no bem que o outro faz, é sinal de que há algo muito errado dentro desse indivíduo.

Talvez pessoas infelizes se ressentem de coisas que trazem bem estar para outros seres vivos – até porque falta coragem para sair da zona de conforto (que na maior parte das vezes parte das vezes é um lugar ruim) e de alguma forma ajudar quem precisa.

Eu não me considero protetor animal, mas sou voluntário da causa há algum tempo. Não faço o suficiente, mas tento me dedicar o máximo possível porque é uma causa que fala ao meu coração. Junto a mim, existem outras dezenas de voluntários. No lugar onde moro, somos apenas três. E protetora mesmo, de forma assídua, apenas uma.

É importante explicar que o protetor animal não é só quem gosta dos animais de estimação, mas quem dedica seu tempo e dinheiro a uma causa que, salvo exceções, não irá gerar retorno material. Este voluntário tende a mudar sua visão em relação à vida em geral porque passa a respeitar todo e qualquer ser vivo, além, é claro, de lutar pelos direitos dos animais – que vai muito além de proteger contra os maus-tratos.

Nos últimos meses, tenho vivenciado uma situação absurda com uma das moradoras do lugar que resido porque ela odeia gatos. Neste mesmo lugar, ponto de abandono de felinos, existem mais de 100 deles. São mais de cem gatos de rua que sofrem todos os dias os perigos de atropelamento, envenenamento, violência e indiferença.

Este é um problema recorrente, antes mesmo de eu me tornar voluntário, os gatos, em menor quantidade, já estavam lá. Ninguém nunca fez nada por eles. Com o passar do tempo e o olhar de compaixão e empatia, passamos a resgatar, castrar, cuidar e alimentar os animais. Por incrível que pareça, isso despertou a ira de moradores que preferem que eles morram à deriva, longe de qualquer afeto e esperança de uma vida minimamente melhor.

Já houve denúncia ao Ministério Público, Centro de Controle de Zoonoses, Secretaria Estadual do Meio Ambiente, tentativas de abaixo-assinado e tudo o que está dentro da lei. No entanto, tudo o que fazemos também respeita a legislação, então todas as tentativas foram infrutíferas.

E persistimos.

Todos os dias alimentamos as diversas colônias de felinos que estão lá. Apesar da lei ter mostrado que não havia caminhos a seguir, uma denunciante incansável entendeu isso como alimento à maldade intrínseca que a toma por completo: tornou-se sua nova obsessão impedir que os gatos sejam alimentados. Para isso, ela persegue, joga fora os pratos de ração e água que são colocados diariamente, conta mentiras, invade propriedades privadas e faz o possível para envenenar todos os outros moradores, já que ainda não envenenou os felinos. E já ameaçou. Por medo de retaliação contra os gatos inocentes e desafortunados, aguentamos até onde pudemos a constante de afrontas e calúnias disseminadas.

O meu questionamento maior é o motivo. Por que uma pessoa odeia tanto animais indefesos e que já têm uma vida sofrida? Qual é o incômodo maior? É ver que existem pessoas que olham para um animal de rua com empatia? Que tiram um tempo do seu dia atribulado para tentar amenizar o sofrimento de um animal que certamente nunca conhecerá um lar? O que realmente incomoda?

Talvez fosse mais louvável abraçar uma causa, qualquer uma, de forma séria e responsável. Fazer o bem. Olhar para alguém que precisa e estender a mão. O mínimo que se pode fazer é deixar que as pessoas que têm esse ímpeto possam torná-lo ação.

Eu imagino que este pensamento passe longe da mente cruel e medíocre de pessoas preenchidas com perversidade, por isso elas tentam espelhar sua própria falta de caráter e empatia no outro. Certamente, por se julgarem não merecedoras de empatia, inconscientemente ou não, elas não conseguem admitir que outras pessoas sejam. E tenham.

Espero que a causa animal continue em expansão e que as pessoas criem consciência de que a malignidade contra o animal e indiferença para com o seu sofrimento é um dos piores males da humanidade. É a base da degradação humana, parafraseando Romain Rolland.

O problema maior, a meu ver, reside na necessidade de se provar melhor que o outro, tentando fazer com que este faça menos que você, ainda que você faça absolutamente nada. E aí eu termino com uma frase do filósofo Peter Singer: certamente existem animais não-humanos, cujas vidas, em qualquer nível, são mais valiosas que a vida de alguns seres humanos.

Gosto de assumir riscos e nada mais arriscado do que dizer tudo que vem me acelerando o peito. (2)

Lohan Montes

Lohan Montes

Jornalista de formação, descobriu que as letras estrangeiras lhe faziam mais sentido, mas nutre uma paixão irremediável pela psicologia. Diagnosticado com nictofilia aguda ainda na infância, vê beleza no lado escuro da vida, encontra paz nos gritos de Diamanda Galás e sonha em um dia escrever como Stephen King.
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