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Chega-se sempre ao ano em que uma das maiores faltas nos aniversários é a da mesa com o tradicional bolo. O ritual sublime no qual o passar do tempo é realmente oficializado – e aceito. Ainda que a qualidade gastronômica das festas intuitivamente melhore com a fase adulta – poder aquisitivo, liberdade de escolha e apuro no gosto são alguns dos fatores para tal –, as comemorações muitas vezes minguam e são seladas com meras formalidades condizentes com a sisudez do envelhecimento. O dia em que o bolo não vem é o memorando de que o tempo de fato passou.

Há uma semana um amigo celebrou mais uma renovação astrológica; volta em torno do sol um ano de vida nas costas e escreveu um texto em sua rede virtual que começava assim: “acho que pela primeira vez na vida não tive um bolo de aniversário”. Como só a psicanálise é capaz de explicar, minha resposta à sua longa reflexão – tão propícia a datas assim – girou em torno da ausência do bolo. A minha entrada ao ano 24, em novembro passado, também fora marcada pela mesma falta.

Por esses dias o interpelei a respeito do texto, coloquei o que era a questão central para mim na mesa – e que mereceu sua atenção, afinal, dava início ao que ele registrava na data. Confessei, assim, que meu humor em meu último aniversário não havia seguido à risca do que se espera de datas tão festivas: eu havia chorado e lamentado a ausência do famigerado bolo. Por que tamanho peso em algo tão prescindível? A opção sensata pelo doce da padaria da esquina ou pela diminuta fatia de torta holandesa não havia gerado certa satisfação?

O bolo de aniversário embute em seu simbolismo a formação de uma ciranda de pessoas ao redor de uma mesa, formulamos eu e meu amigo. Ali, o doce não é apenas algo a ser deliciosamente devorado para atingir nossos níveis de glicose no sangue: partir o bolo é compartilhá-lo. Viver mais um ano não é também ter apenas a pura constatação de nosso envelhecimento – do famoso ‘menos um’. Aniversários encerram e iniciam ciclos, mas trazem para o balanço pessoas que permaneceram e se ausentaram ao longo do caminho.

As redes virtuais hoje parecem contribuir para a profusão de laços e para o isolamento na mesma medida. Datas festivas são recheadas, ainda bem, de mensagens desejosas, lembranças de última hora e compilados de áudios de quem se encontra distante. Contudo, a falta do bolo no fim da tarde traz a latente questão: quem estará comigo nos próximos anos? E quem estaria aqui, agora, no assoprar das velas?

Milena Buarque

Jornalista e pós-graduanda em Estudos Brasileiros, é pedestrianista e apaixonada por livros e América Latina. Gosta de viajar, de suco de limão e de vento. Não gosta de fazer perfil em terceira pessoa. Escreve sobre tudo e nada aqui e sobre cultura aqui.
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