O capítulo que escreverei para você na minha biografia • We Love

O capítulo que escreverei para você na minha biografia

Biografia

Um dia, eu escreverei um livro de memórias. Falarei sobre amor. Não falarei sobre as cicatrizes da minha barriga. Falarei sobre dias de verão, sobre percursos nunca terminados, sobre o morangueiro no fundo do quintal. Não falarei sobre os cães ladrando no meio da noite, nem das chances que perdi, nem das insônias.

Falarei de você. Não falarei de mim. Em um capítulo específico. No terceiro.

Você estará feliz, pai de dois ou quatro filhos. Você terá amado tanto que sente como se o mundo fosse mais bonito do que os noticiários fazem parecer. Você terá uma casa na beira da praia e tomará chá em todos os finais de sábado, faça chuva ou sol. Você estará feliz. Você estará feliz.

Você abrirá o meu livro mais ou menos na página quarenta e sete. Você não lembrará meu nome e já terá esquecido que, na maioria das vezes, eu me preservo atrás de um pseudônimo. Você gostará da maneira como construo os diálogos, arquiteto os parágrafos. Você continuará lendo até chegar na página quarenta e sete.

Um dia eu escreverei um livro de memórias. E minha única motivação será “um dia ele, inevitavelmente, vai gostar da minha lombada”. O capítulo três será seu. Ele começa com algo parecido com: em toda a minha vida eu só consegui amar uma única vez e isso é a coisa mais triste que qualquer pessoa lerá sobre o amor.

Você ficará assustado. Você pensará que o autor é dramático, dependente e irresponsável com os próprios sentimentos. Você terá vontade de largar, mas eu sei que você nunca larga um livro antes da metade – por isso ainda estamos na página quarenta e sete. No capítulo três. Ele é sobre você.

Falarei sobre vinhos baratos comprados em supermercados. Não falarei sobre pessoas que escrevem cartas de despedida. Falarei sobre beijos, sobre crianças brincando na calçada, sobre nuvens em dias de tempestade. Não falarei sobre marcas, nem sobre o atraso dos ônibus nas metrópoles, nem sobre a maldade.

Você pensará que livros de memórias são indispensáveis quando o retrato dos autores não estampa a orelha de trás. Você gostará da sinopse, da dedicatória e da diagramação. Você já terá mais da metade da vida e estará feliz. Estará feliz como nunca esteve antes. Tão feliz que não vai reconhecer o capítulo triste que escreverei sobre você.

Será conciso. Breve. Terá frases aleatórias e citações das tragédias de Shakespeare. Não terá ilustrações. Não falará sobre corações quebrados. Terminará de uma forma abrupta. Escreverei sobre bordados. Sobre o céu. E sobre terminais de integração lotados. Não terá o seu nome. Não terá o seu nome. Nem o meu.

Um dia, eu escreverei um livro de memórias. E não terá receitas. Não terá letras de canções dos anos oitenta. Não será exatamente sobre mim. Terá várias notas de rodapé. Terá capítulos com mais de trinta e cinco páginas. E falará um bocado sobre homens que amam outros homens de uma maneira muito profunda.

Você lerá devagar. Acenderá o abajur da cabeceira porque será irresistível saber que existe um livro de memórias cujo capítulo três parece com a história que você viveu com alguém quando os anos pareciam jovens. Você chorará. Você chorará. Mas estará feliz.

Ronaldo Gomes

Ronaldo Gomes

Estudante de jornalismo que teoriza sobre qualquer besteira que encontra pela frente. Adora dançar – não na frente das pessoas – e escreve em um ritmo sobre-humano, ou gostaria. Já cantou em um coral, escreveu a própria biografia quando tinha menos de 10 anos e hoje vive contando histórias sobre a inimaginável capacidade humana de ter sentimentos.
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