O contador de histórias – We Love

O contador de histórias

Ele tinha cabelos lisos, penteados delicadamente para trás. Magro e com pernas finas. Usava um relógio, uma pulseira e uma corrente prata, que teimava em aparecer pelas blusas de botões que não fechavam até o fim. Seus óculos eram quadrados e ele tinha um cheiro amadeirado de lavanda. Todas as tardes, ele sentava no banquinho da barbearia em frente da sua casa para prosear – como costumava dizer. Esse é o José Leal Guimarães. Quer dizer, esse era o vô Zé Teles.Baiano, nascido no interior que fazia fronteira com Sergipe. Morou com os filhos por quase dez anos no Rio de Janeiro. Tornou-se um baiano com alma de carioca. Mistura de raças parecidíssimas, o que só resultou em milhões de história.

Devido às reviravoltas da vida, voltou para Bahia, mas fixou moradia em Sergipe. Era daqueles que sabia fazer tudo: de desentupir uma pia a pintar e rebocar paredes. Era um mestre na vida – e da alegria.

Para nós, ele era quase o super-homem, pelo simples motivo de conseguir descascar a laranja sem fazer nenhum buraco/ferida e sem quebrar a casca. No fim, tínhamos uma laranja de desenho, toda branquinha e a casca que se tornava um caracol para as minhas brincadeiras infantis com o meu irmão menor. Ainda não encontrei NINGUÉM que consiga repetir o fato – nem mesmo meu pai!

Por dezessete anos, ele esteve presente contando as peripécias dos filhos quando menores, seus contratempos em terras cariocas, acompanhando as nossas aventuras no colégio e deixando claro que, para feliz, precisávamos nos entristecer também. Até os meus dez anos, nós moramos na mesma cidade e lembro-me das tardes que eu ficava em sua casa. Ele me pegava na escola de Kombi, branca, com bancos de couro que brilhavam de tão bem cuidados. Era uma festa entrar naquele carro e andar pelas ruas deitada no banco. Lembro-me do seu olhar atento pelo retrovisor, sorrindo: “Menina, cuidado para não se machucar!”, me dizia.

Com ele, aprendi a jogar baralho: do simples “burro” ao classudo “buraco”. Mas o nosso jogo preferido era a “trinca”. Todas as sextas-feiras era lei: íamos a casa dele antes de sairmos para jantar e tínhamos que jogar uma partida daquele jogo que desconfiávamos que ele havia inventado.

“Vô, esse jogo existe mesmo?” – insistamos em saber.

Ele abria o sorriso: “Mas é claro, joguei muito no Rio de Janeiro”, respondia sonhador.

Até hoje, ainda não encontrei alguém que conhecesse o jogo “trinca” da forma que ele nos ensinou. Em parte, é o que torna a lembrança tão especial: era uma coisa só nossa!

Quando mudei de cidade, passamos a nos ver bem menos. Todas as férias, eu o visitava ou ele nos visitava. Em uma dessas visitas, tinha suco de jenipapo –  e isso é uma fruta –  para o almoço. Eu odiava!

– Eu também não gosto dessa fruta, tem um cheiro esquisito. Parece aquele cheiro de quando a pessoa esquece de usar desodorante, sabe? – foi o comentário dele na mesa do almoço, dando risada. Depois desse dia, nunca mais fui obrigada a beber suco de jenipapo – tks, vô!

Fui crescendo e minha mãe reclamava da minha altura – 1,58cm hoje em dia –, dizendo que eu não poderia engordar, porque seria só peito e bunda.

“E ainda é inteligente? Não precisa de mais nada! Sucesso garantido!” – ele dizia e nós ríamos.

Ele nunca perdia nossos aniversários. Quando não podia estar presente na data, ele ligava e falava, falava, falava do quanto nos desejava a felicidade e como seríamos grandes pessoas. Depois, contava uma piada e ria, aquela risada gostosa de ouvir.

Durante a minha adolescência, ele precisou se internar duas vezes. Coração. Nunca entendi como alguém tão feliz, pudesse sofrer, logo, do coração. Mas, com o tempo, entendi que nem sempre as coisas fazem sentido e que, às vezes, não há nada que possamos fazer. Dormi com ele algumas noites; nas duas vezes, minha vó precisava de um descanso do sofá do apartamento. E eu adorava o fazer companhia. Mesmo no hospital, com as agulhas furando o braço e mão por causa do soro e remédios, ele me fazia rir e nós nos divertíamos com as enfermeiras e médicos, que passavam para visitar.

“Essa é a minha neta mais velha” – ele me exibia para todo mundo.

Na última vez que ele esteve internado, fui dormir em um dia da semana; depois do treino de handebol no colégio, fui direto para o hospital, que fica em frente a uma igreja. Bastava atravessar a rua. Meus pais me deram dinheiro para jantar e eu fui a um restaurante perto. Na volta, eu entrei na igreja.

Não sabia exatamente o que fazer ali. Apesar da minha vó materna ser muito religiosa, minha mãe nunca foi de ir à igreja. Até hoje, não fiz primeira comunhão! Mas ela nos ensinou a rezar e conversar com Deus.

“Basta agradecer e conversar como você faz com as pessoas que estão aqui. Ele é um amigo” – minha mãe nos ensinara.

Entrei, a missa havia terminado. Sentei em um banco e falei com o coração. Pedi para que meu vô melhorasse, saísse do hospital e vivesse por mais algum tempo, porque ainda tínhamos muitas coisas para fazer. Rezei um Pai Nosso e voltei para o hospital.

Alguns dias depois, ele recebeu alta, mas também o aviso de que não haveria o que fazer em uma próxima vez. Na hora, eu só ouvia que ele estava saindo do hospital. Era isso o que importava.

Em 2007, três anos depois, ele nos deixou. Da forma que sempre desejou: “Quero morrer dormindo, só deitar e não acordar. Vocês vão ver, não vou morrer em hospital” – e assim foi.

No dia que recebi a notícia, eu estava no colégio. Havia acabado de começar a primeira aula quando me chamaram para descer da sala com todas as minhas coisas. Ao sair da porta, vejo meu irmão, ainda gordinho, com seus 12 anos e meio e cara de quem não entendia nada.

“Sua mãe está vindo pegar vocês. Seu avô faleceu” – o coordenador jogou as palavras em cima de nós. Meu irmão segurou a minha mão, ele tinha a mania de andar de mãos dadas comigo para que eu o segurasse – ele vivia correndo!

Eu não acreditei no que ele disse. “É claro que não, não é verdade”, pensava enquanto esperava a minha mãe. Olhei para Raul, que ainda segurava a minha mão mesmo sentado no banco. Ele me encarou com os olhos de jabuticabas, arregalados. Sorri de lado. “Não deve ser verdade, ele deve ter passado mal, só” – falei para ele, com intuito de tranquilizar a nós dois. Mas, ao abrir o carro e olhar para minha mãe, eu soube. Antes de qualquer palavra, meu coração soube.

“Vô morreu.” – eu disse, ela confirmou com a cabeça. Olhei para meu irmão, que começara a chorar e chorei durante todo o caminho.

A ficha só caiu quando vi o caixão – e, ainda assim, eu ficava imaginando que ele iria levantar e pregar a maior peça de todas. Ele nunca levantou.  Quando vi o caixão ser enterrado, eu me desesperei. “Era verdade: ele morreu! Meu vô morreu!” – eu gritava dentro da minha cabeça.

Por duas semanas, eu sonhei com ele e chorei todas as vezes. Por algum tempo, eu evitava olhar o nosso porta-retrato no meu quarto, porque eu o via me encarando da foto e eu sentia aquele aperto no peito, aquela angústia intensa que não parecia ter espaço para razão e nem conclusão. Porque, na verdade, não tem fim. O tempo apenas te ajuda a conviver com a dor e com a saudade.

Até que, um dia, você está tão familiarizado com esses sentimentos, que eles param de te impressionar e você vive um dia após o outro. Tagarelando sozinha o que gostaria de dividir com a pessoa. Escrevendo textos que nunca serão lidos. Sonhando com o sorriso e olhar carinhoso. Esperando pelo dia que vocês poderão se reencontrar .

– Esse dia irá chegar, vô. Pode me esperar.

Bruna Guimarães

Bruna Guimarães

Jornalista & fashion lover. Made in Aracaju, living in São Paulo. Acredita que o amor é sempre destino e glitter, uma segunda pele. Louca por carnaval e mar e sorrisos e pessoas interessantes.
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