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O dia em que a Preta sumiu

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Ela tinha pele branca, cabelos loiros, olhos claros. Mas desde pequena sonhava com o cabelo preto, a pele preta, contrastando com os olhos que tinha. Sim. Dos olhos gostava.

Por mais que ficasse no sol, era o vermelho que ressaltava. Não chegava nem perto da cor de seu desejo. Vivia vestindo preto. Era assim que se sentia bem. Achava a cor mais linda do mundo.

Nunca pintou o cabelo. Mas ainda pensava em fazer isso. Tinha uma peruca morena guardada. Uma não. Duas. Duas perucas que usava em festas, fantasiando ser o que não era. Como era bom fantasiar.

Aprendeu a dançar com a Preta. Todo tipo de dança. Mas era o samba que mais lhe agradava. Samba. Samba. Uma vez se candidatou a rainha do bloco de samba da cidade. E lá se realizou. Foi escolhida. A Preta ficou orgulhosa porque sua menina estava tão linda. E aprendeu direitinho todos os passos. E ela? Ela se esbaldava em cada passo.

A Preta era, por profissão, professora de dança. Perfeccionista. Detalhista. Mas essa característica a menina não absorveu. Gostava de improvisar. E, sendo professora dos pais e da menina, se tornou também melhor amiga.

Acabou por ser considerada quase uma mãe pra menina. E era uma mãe também porque vivia na casa. Compartilhava tudo. Depois que o marido da Preta faleceu, ela passou a conviver com a família da menina. Eles se ajudavam mutuamente. Dizem que é melhor viver desse jeito, né? Tendo com quem contar. E assim era.

Viviam todos na mesma casa. E a Preta quem mandava. Era ela que trocava os móveis de lugar. Ela que era a referência. E, depois de um tempo, era ela que seu pai amava, sabia.

A Preta um dia sumiu. Depois de vinte anos de convívio, desapareceu. A mãe, a tia, a amiga. A melhor amiga de sua mãe de verdade. A Preta se foi. Não se sabe se por vergonha, medo ou sei lá o que. A Preta sumiu.

E ela ficou órfã. De duas mães passou a ter uma só. E não é que aquela não bastasse. Mas já tinha acostumado. Acostumado a querer ser morena e querer a Preta por perto.

Sabrina Guzzon

Sabrina Guzzon

Publicitária. Desenha e escreve por hobbie. Ama também cozinhar. É mãe da Maria Flor, do Antonio e esposa do Fernando. Faz regime constantemente e nunca dá muito certo. Deve ser porque odeia academia. Acha que é ruim em tudo, mas mesmo assim se arrisca.
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