Posted on

“o amor pelas palavras é tão erótico que ou eu estou apaixonada ou excitada pela escrita ou ambos”, confidencia às páginas Rupi Kaur, indiana de 24 anos e poeta de uma geração conhecida como instapoets: escritores que utilizam as redes sociais como veículos para divulgar e compartilhar poemas. Artista plástica e performer, Rupi reuniu seus escritos no livro milk and honey. No Brasil, outros jeitos de usar a boca foi lançado recentemente pela Editora Planeta.

A dor, o amor e a ruptura, que nomeiam três dos quatro capítulos do livro, estão sintetizados logo na epígrafe: “meu coração me acordou chorando ontem à noite / o que posso fazer eu supliquei / meu coração disse / escreva o livro”. E é desta mesma forma que a poeta trabalha o amor e os sentimentos de quem a lê. A crueza do amor egoísta e nocivo e a catarse do apaixonar-se permeiam toda a unidade da obra. Justamente por isso, outros jeitos de usar a boca se coloca como uma experiência completamente distinta para quem já acompanha os posts e as ilustrações de Rupi nas redes sociais – que é o meu caso.

Com mais de um milhão de seguidores hoje apenas no Instagram, foi a própria rede social a protagonista de um episódio que levou Rupi a ser notícia em jornais de todo o mundo. Em 2015, um autorretrato seu, no qual aparecia deitada de costas em uma cama com o lençol e as calças manchadas de sangue, foi banido de sua conta. Na época, indignada, ela disse: “Não vou pedir desculpas por não alimentar o ego e o orgulho misógino de uma sociedade que aceita ver o corpo feminino de lingerie, mas não acha ok essa marca [de sangue menstrual]”. Depois de o assunto gerar barulho e sair do universo virtual, a rede social se posicionou com um pedido de desculpas. Rupi, então, se tornou mais um símbolo da luta contra o machismo, a hipocrisia e o patriarcado.

E é no capítulo a dor em que Rupi se expõe – e nos expõem – de forma mais dilacerante. Estupro, relacionamento abusivo, ingenuidade e a relação entre pai e filha, temas tão delicados, são contrapostos com sua maneira extremamente simples e sem formalismos de fazer poemas. Assim, escritos que muitas vezes não ultrapassam cinco linhas levam horas para serem assimilados.

É com honestidade que Rupi consegue tratar da linha tênue que separa o amor do abuso. O toque, por exemplo, assume suas duas facetas em a dor e o amor: ‘estremeço quando você me toca / temo que seja ele’, escreve, denunciando o medo, e, num contexto de respeito e pleno sentimento, diz ‘você me tocou / sem nem precisar / me tocar’.

Sobreviver ao amor é compreender nele a existência de começos, que muitas vezes trazem encaixados finais anteriores. A ruptura, então, terceiro capítulo do livro, deve ser entendida como processo de aceitação que, ao lado da tão aguardada cura, a quarta e última parte da obra, pode levar à descoberta da forma mais importante e genuína de amor: o próprio.

Os escritos de Rupi Kaur são uma ótima maneira de se aproximar do universo da poesia. Não deixará de ser doloroso e amargo, mas os braços que nos envolvem podem, e devem, nos trazer delicadeza e, sobretudo, amor.

Abaixo, quatro poemas de Rupi:

A dor:
o estupro
vai te rasgar
ao meio
mas
não vai ser
o seu fim

 

O amor:
como você faz para deixar
meu fogo selvagem
tão suave que acabo virando
água corrente

 

A ruptura:
eu não fui embora porque
eu deixei de te amar
eu fui embora porque quanto mais
eu ficava menos
eu me amava

 

A cura:
se você nasceu com
fraqueza para cair
você nasceu com
força para levantar

Milena Buarque

Jornalista e pós-graduanda em Estudos Brasileiros, é pedestrianista e apaixonada por livros e América Latina. Gosta de viajar, de suco de limão e de vento. Não gosta de fazer perfil em terceira pessoa. Escreve sobre tudo e nada aqui e sobre cultura aqui.
Milena Buarque

Últimos posts por Milena Buarque (exibir todos)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *