O esforço de sermos um só • We Love

O esforço de sermos um só

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Sempre que possível, eu e uma grande amiga terminamos a semana sentados numa das mesas “da francesa” – uma kebaberia aqui da cidade onde moro, cujo nome não sabemos ao certo e que é dirigida por uma francesa. É sempre uma delícia.

O lugar tem um atendimento maravilhoso, cerveja gelada e barata, além da comida gostosa. Da última vez que fomos, minha amiga me contava algo que viveu algumas semanas antes. Algo importante e que a deixou com medo. Enquanto relatava, falou que foi um dos momentos em que mais se sentiu sozinha na vida. Foi o momento em que se viu sem ninguém. Daí eu perguntei: “uai, e eu?”. E ela disse que preferiu não dividir comigo na época por receio. Eu entendi e até dei razão, em partes. Eu mesmo já fiz isso diversas vezes. Depois daquela conversa, “o momento em que eu mais me senti sozinha na vida” ficou latejando no fundo da minha mente durante toda a semana.

Muitas pessoas dizem não completar uma mão quando contam nos dedos os amigos verdadeiros. Eu completo. E passo. Das duas mãos. E com a maior parte dos meus amigos, já celebrei as bodas de estanho. Mas eu também já tive “o momento em que mais me senti sozinho na vida”. Na verdade, minha vida é o momento em que me sinto mais sozinho. Confuso, né?

Veja bem, eu amo meus amigos e sei que sou amado por eles, mas o sentimento está aqui. Solidão é uma palavra que causa arrepios. Temos medo de ficar sozinhos. De acabarmos sozinhos, para ser mais literal. Depois de começar a refletir sobre isso, não pude deixar de perceber que não só a sensação, mas o tema em si tem me rondado incansavelmente nos últimos meses. Até na análise eu passei pro divã. E eu, que já estava acostumado a narrar as angústias e questionamentos para minha analista, olho no olho, passei a ter no meu campo de visão persianas de cor bege. E meus demônios de cor cinza.

Ser sozinho é uma tarefa difícil porque nos resta somente a nós mesmos. E quando estamos na nossa companhia, estão também as nossas frustrações, os ressentimentos, a culpa, o medo. Apesar de tentarmos a todo custo negar tudo isso – que é inerente a nossa condição humana –, o que resta quando estamos sozinhos não deixa de existir, por mais nobres e suados que sejam os esforços. Acho que é por isso que tantas vezes nos entregamos a relações muitas, conversas triviais e companhias desinteressantes. Só pra fugir um pouco de nós mesmos. É válido observar, por outro lado, que o sentimento de solidão está presente desde sempre.

Obviamente, existem tipos de solidão e é possível ter prazer estando só (que fique claro o último verbo utilizado: “estar”, não “ser”). A meu ver, solidão é uma separação: seja de um relacionamento afetivo, familiar, de amizade ou profissional; seja entre você e o mundo. O problema é que a vida é constituída de separação, desde lá atrás, quando o cordão umbilical é cortado e somos separados de nossas mães. Começa aí o esforço de sermos um. Ou voltar à equação primeira do sermos dois.

Há pessoas que começam uma batalha invencível para se tornarem dois de novo. Esta última sendo mais perigosa, apesar de mais comum. A enxurrada de falsas promessas com as quais podemos suprir nossas faltas, nos completando com outro, está cada vez mais latente. É dito que, na vida, é preciso ter alguém pra construir algo. Juntos. Nós dependemos do outro para sobreviver. Ponto.

Até Freud fala que somos absolutamente vulneráveis à vontade e ao olhar do outro e que negamos o que está dentro de nós em prol do outro. Mas, qual é o sentido de negar? A linha de chegada é a mesma pra todo mundo. Então, não. Chega de esconder a solidão. Eu sinto. Aquela minha amiga também sente. Outros amigos meus, certamente sentem. Você também deve sentir. E se sente, assuma. Encare. Encare-se. Talvez aceitando que a urgência e a impaciência da sociedade contemporânea deixam como consequência esse vazio a gente possa lidar melhor com a solidão. Mas vai ver isso seja assunto para conversar com minha analista. E na mesa da francesa!

Inclusive, tenho que marcar a próxima ida com minha amiga.

Lohan Montes

Lohan Montes

Jornalista de formação, descobriu que as letras estrangeiras lhe faziam mais sentido, mas nutre uma paixão irremediável pela psicologia. Diagnosticado com nictofilia aguda ainda na infância, vê beleza no lado escuro da vida, encontra paz nos gritos de Diamanda Galás e sonha em um dia escrever como Stephen King.
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