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O espetáculo não pode parar

O espetáculo não pode parar

Tempo é engraçado. Indefinido. É um sujeito, um verbo ou qualquer coisa que seja uma metáfora para que nos sintamos mais confortáveis com a ideia de que é ou precisa ser. Algo. Ou alguém. Tempo é engraçado.

Assustador, mas engraçado. Inegável e absolutamente aterrorizante. Faz uma gracinha aqui, muda um rumo para as bandas de lá, sempre um passo meio palma apressado, sempre, mas nem sempre.

Tempo escapa pelas mãos, escorrega como se tivesse banhado em uma substância líquida feita para ser escapável. Tempo é engraçado, veja bem como ele ri da nossa cara: contamos piada para esconder a tristeza, abrimos bem a boca para gargalhar de uma topada desgraçada desconhecida na rua, rimos tanto que, por vezes, até escorre uma lagrimazinha – certos de que nunca sabemos quando ela desenha a maçã do nosso rosto carregada dos sentimentos que são bons ou ruins (vasta experiência fez muita gente atestar que é mais fácil transformar a dor em líquido lacrimal que a êxtase de alegria).

Tempo é uma coisa. Engraçado, o tempo. Parece um animal silvestre que a gente domestica, domestica, domestica. E ele galopa solto, rápido, quase como se não quisesse uma contenção – águas represadas que saem invadindo e destruindo tudo que encontram pela frente, em um percurso natural e absurdamente compreensível diante da nossa ingratidão. Somos ingratos com o tempo e o tempo é ingrato de volta com a gente. Só sabemos dar o que aprendemos a receber.

Colocamos relógios nos pulsos. Penduramos ponteiros nas paredes. Produzimos tabelas. Entregamos calendários gratuitos de porta em porta. Não raras são as vezes em que tentamos adestrar esse animal que é silvestre, que corre e corre e corre pelas campinas verdes e escala montanhas e ruge e ruge e ruge e muda todo o rumo da história. O tempo. A gente sempre acha que ele mais nos pertence do que pertencemos a ele. Forçamos contra sua vontade, o espremendo contra as expectativas que cultivamos como uma planta que esquecemos de regar. Tempo é engraçado, ele só vai rindo da nossa incapacidade.

Cronometramos abraços. Pontuamos sorrisos. Marcamos a demora de um diálogo, a lentidão de um silêncio e a indissolúvel maestria de uma maratona percorrida nas noites de céu mais claro. Tempo é a falta, a presenta e todas coisas que que pairam.

Se faz luz chamamos dia. Se falta luz chamamos nós. Ou noite. Tanto faz. O tempo é engraçado: ele só nos escapa porque a gente tenta prender. É a mesma lógica de um filho rebelde contra pais rígidos: quanto mais se aperta o cerco, mais propício fica a realizar atos heroicos e memoráveis de rebeldia adolescente. Tempo é isso. Ou nada disso.

Tempo é uma criancinha pedindo um doce, uma moeda para um doce. Tempo é a gente ficando para trás, é a gente se permitindo dar passos, é a gente estagnado. Tempo é engraçado: a figura central de uma narrativa humorística que pagamos caro para ver antes de nls darmos conta que o melhor, mais bonito e mais admirável espetáculo a gente vê de graça. Às vezes pelas brechas, mas de graça.

2018 é tempo. Ainda estou na fila para comprar os ingressos. Espero que consiga bons assentos.

Ronaldo Gomes

Ronaldo Gomes

Estudante de jornalismo que teoriza sobre qualquer besteira que encontra pela frente. Adora dançar – não na frente das pessoas – e escreve em um ritmo sobre-humano, ou gostaria. Já cantou em um coral, escreveu a própria biografia quando tinha menos de 10 anos e hoje vive contando histórias sobre a inimaginável capacidade humana de ter sentimentos.
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