O novo mundo tem gosto de limão – We Love

O novo mundo tem gosto de limão

“Preciso evitar a venda do Seu Messias, tô devendo pouco mais de cinco abraços por lá. Se arredondar, ele deve me pedir até seis”, penso alto no caminho de volta para casa. Há algum tempo, prefiro retornar a pé para evitar até mesmo a cobrança do ônibus também, que aumentou vinte luas passadas. Antes, um sorriso na entrada da catraca e um na saída, mas o governo alegou a necessidade de melhorias e subiu para um aperto de mão. Cedo ao preço quando estou extremamente cansado – coisa rara, já que trabalho como faxineiro num motel.  A história diz que esse empreendimento vivera uma era dourada, mas, hoje, não. Ninguém mais precisa fazer amor quando vivemos pelo amor.

Se você me perguntar em que ano estamos, não saberei te dizer. Paramos de contá-los quando o grande crash aconteceu. Você deve ter ouvido falar, né?! A gente estava tão ferrado que tudo teve que parar de uma hora para a outra. Meu tatatatataravô contou uma versão dessa história em seu diário, que foi passando de geração para geração, até o dia em que penhorei para comprar a minha casinha no campo. Isolada. Longe de toda essa loucura. Eu tô tentando plantar minha própria comida e juntar uns carinhos para trocar por uma vaca. Um dia – quem sabe? – passo a viver autossustentável, ou melhor, passo a viver.

Minha rotina hoje se resume a me esquivar do sistema. Corro de quem devo e de quem me deve. Tudo o que eu ganho com o meu trabalho, repasso. E, assim, vou negociando para que quem precisa me pagar pague a quem eu preciso pagar. Por isso, comentei com você do Seu Messias. Tô tentando fazer com que Dona Marisa, que me deve dois beijos na bochecha, quite a minha dívida com ele. Meu amigo Thomas, único que resistiu às minhas práticas, vive falando que estou querendo lutar contra algo muito maior do que eu. “Você vai acabar doido ou preso”, diz toda vez que lhe conto uma das minhas histórias. Ele pode ter razão; as pessoas têm me olhado cada vez mais estranho. Mas quando foi fácil ser diferente?

Quando pequeno, ouvia atento a professora contando a história dos nossos antepassados. Ela descrevia as brigas por terras, as grandes cruzadas, o alastramento da fome, as queimadas, as três guerras mundiais… Toda vez em que escutávamos a história da última e mais terrível das guerras, não parecia real. Embora muito tempo tenha se passado, é inacreditável que, um dia, fomos capazes de brigar por dinheiro (é essa a palavra mesmo que usavam?). Nunca consegui entender como um pedaço de papel podia valer tanto. Como os mais ricos não eram os que mais tinham carinho para dar? Quem não tinha esse papel para trocar, o que fazia? Mas aí veio toda a transformação do sistema depois disso e o cara lá, que sempre esqueço o nome, descendente de Shakespeare, inventou essa nossa nova sociedade, que eu posso não gostar, mas me parece um pouco mais justa: recebe quem dá.

A minha casa é simples. Na sala, acumulo alguns livros empilhados numa estante torta. Cada vez que tento consertá-la, mais torta fica. “Preciso lembrar de não mexer mais nela”, faço uma nota mental. No quarto, um abajur cor verde piscina rouba a cena ao lado de uma cama velha de madeira reflorestada. Sento para escrever um pouco e ela range, quase como se reclamasse: “chegou a minha hora”. Respondo risonho: “sou Deus no seu caso, eu digo quando ela chegar”. Na parede oposta à minha cama, o contorno de uma escrivaninha recém-retirada molda a base de um desenho de um rosto feminino. Amélia. E uma lembrança ressurge.

Na cozinha dessa mesma casa, há algumas primaveras, sentava pacientemente aguardando pelo seu chá uma mulher, a quem eu acabara de conhecer. Ela vendia bolo na praça da cidade e, certo dia, caminhando a esmo e enfeitiçado pelo cheiro, fui em direção à sua barraca. Embora a minha vontade fosse me jogar naquele tabuleiro, a cobrança por um pedaço da gostosura me parecera além da minha necessidade. “10 piscadas de olho no olho, moço”, falou, enquanto eu encarava um pedaço de torta de limão com as bordas levemente douradas. Assustei-me com a sua fala e, como sempre, recusei. Ela insistiu, erguendo suas sobrancelhas largas, sua pele negra reluzindo uma confiança além da sua idade: “Mais vale um sacrifício passageiro do que uma vontade não concedida”. Eu podia ter discorrido sobre toda a minha escolha de viver paralelamente àquele sistema impositivo, mas preferi ficar com um “não, obrigado”. Abaixei a cabeça num breve aceno e segui para casa.

Depois de percorrer a parte em que a cidade me fazia companhia, adentrei a estrada de terra que dava no meu pequeno pedaço de mundo. O silêncio daquela caminhada me preenchia como nenhuma outra coisa fazia igual. Mas isso não aconteceu, não naquele dia. Ouvi passos apressados na mesma trilha que seguia. Resolvi me esconder, poderia ser o Seu Messias ou a Dona Marisa. De trás de um salgueiro que devia ter mais luas do que eu fosse capaz de contabilizar, avisto uma cabeleira crespa com uma pequena embalagem transparente na mão. Sai de trás da árvore. “Ou você é uma psicopata dos olhos ou eu realmente não sei explicar o que você é”. Ela sorriu desajeitada. “Nunca soube ouvir não, talvez você possa me pagar com um copo d’água. Tô com sede depois dessa perseguição”. Pensei por um momento, mas acabei cedendo. “Ok, mas você está proibida de me encarar por mais de 3 segundos”.

A chaleira apitou. No tempo em que degustávamos um chá de erva-doce, colhido da minha própria horta, experimentei a torta dela. Aquela explosão de sabores na boca lembrou-me das tardes ensolaradas na casa da Vó Dinah, quando ainda fazia questão de espalhar o meu amor pelo mundo. Toda a família olhava para mim com orgulho pensando em como eu ficaria rico. “Esse aí nasceu para derramar beijos e abraços”, previram erroneamente meu futuro. E cá estava eu, pagando com chá na tentativa de evitar laços afetivos com uma das mulheres mais lindas que já conhecera. “Teria valido a pena meu pagamento”, brinquei um pouco para me livrar das minhas próprias lembranças. Ela ficou séria e perguntou o que queria ter perguntado desde que me conheceu: “O que aconteceu com você?”. Tá aí uma pergunta que nunca soube responder. De uma hora para outra, percebi que tinha demais. Coisas demais, comida demais, amigos demais, tudo porque eu tinha muito carinho para dar. O excesso me trouxe a reflexão: não precisava de tudo aquilo. Aos poucos, comecei a evitar algumas compras; umas aqui, outras ali. E, quando menos percebi, tava aqui. Sozinho. Desprezando o sistema e tudo o que ele representava. “Você vai precisar de muito mais do que 10 piscadas de olho para conseguir entender”, segui jogando. “Eu tenho tempo”, garantiu ela, enquanto levantava da cozinha e dirigia-se para a única poltrona da sala.

Sentei no chão. Fazia tempo que eu não conversava dessa maneira com outras pessoas, senão eu mesmo. Adquiri esse hábito quando percebi que ninguém iria me ouvir. Mas lá estava ela, escutando pacientemente toda a minha divagação, que vacilava entre um desejo infantil de construir um mundo melhor e uma visão egoísta de impor a minha vontade sobre os outros. Ela me olhava com um quê indagativo, não mais do que três segundos, como prometera. E me deixou falar, falar e falar, até que sutilmente descansou o seu olhar no meu. Calei-me. Na primeira piscada, me esforcei para segurar aquela interação. Na segunda, fugi para a testa dela, bochechas e lábios. Na terceira, voltei para os olhos, cujas pupilas dilatadas me diziam “tudo bem”. A partir da quarta piscada, eu estava sorrindo. Senti-me mais confortável do que não me sentia há muito tempo. Passamos uma eternidade nos encarando e conversando amenidades. Ela me contou sobre o dia em que um cara quis comprar toda a barraca de bolos dela ao preço de uma noite de amor. “Tem gente que acha que pode comprar tudo só porque tem muito carinho para dar”, comentou. Avaliamos o novo governo, difamamos as propagandas da tevê, dividimos as memórias da infância e, assim, adormeci.

Na manhã seguinte, acordei com uma atípica amabilidade e olhei para os lados procurando por ela. Na poltrona em que ela sentara, apenas repousava um cobertor antigo que a emprestei.  As janelas assopravam um calor do que parecia ser um belo dia de sol. “Preciso ir para cidade vê-la”, pensei enquanto trocava de roupa. Caminhei apressado o percurso de sempre com um sorriso travesso de uma criança que acabara de cometer uma molequice. Avistei a praça, mas, no mesmo ponto em que a barraca dela estava no dia anterior, um homem vendia algodão-doce. Questionei-o sobre a moça bonita dos bolos. Entretanto, ele não a conhecia. Ninguém parecia conhecê-la, percebi quando interrogara duas dúzias de pessoas. Cabisbaixo, retornei para casa. A solidão me acompanhando novamente e o belo dia parecendo zombar do meu infortúnio. Entristeci-me ainda mais quando percebi que não sabia nem ao menos o nome dela. “Será que essa lembrança é real?”, passei a me perguntar.

Já em casa, recolhi o cobertor e percebi um pequeno bilhete embaixo do prato em que havia comido a torta. Numa caligrafia torta, uma receita e um lembrete: “Às vezes, um abraço ou um beijo podem ser apenas um abraço ou um beijo. Espero que você sinta o meu nesse momento. Deve ter gosto de limão. Amelia.” Foi a primeira vez que me senti alguém de verdade nesse chamado “Novo Mundo”. Exasperado, arrastei a escrivaninha no quarto e pintei o que me lembrava daquele rosto marcante. De vez em quando, me pego olhando os olhos fartos de compreensão que me levaram a imaginar o dia em que o amor voltará a ser de graça.

Adler Berbert

Adler Berbert

Editor do We Love. Jornalista, curte frases de efeito, acha que sabe jogar vôlei e está viciado em tirar fotos de anúncios nos postes da cidade. No colegial, foi expulso da banda marcial por não ter ritmo, mas ainda continua acreditando que tem potencial musical.
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