O que aprendi morar junto com uma francesa • We Love

O que aprendi morar junto com uma francesa

paris noite torre eiffel | pixabay

“Eu não quero mais viajar para os Estados Unidos”. A frase veio de uma colega francesa de 27 anos, a qual dividi apartamento quando moramos… Nos Estados Unidos, em 2013. “Sei que não é culpa dos americanos, mas simplesmente não quero dar meu dinheiro para um governo que pensa que o mundo não é um lugar livre”.

Julie deixou a França há um ano e, desde então, tem viajado pela América Latina. “Não consigo acreditar que as pessoas achem normal passar a vida sentado em frente a um computador”. Ela trabalhou com Marketing e gerenciamento de projetos em empresas como a Citroën e conta que, ao oposto do que é difundido sobre o estilo de vida francês, a verdade é bem dura. “Nós chegamos no trabalho às 8h, muitas vezes saindo depois das 20h. Quando temos muito o que fazer, podemos começar o dia no escritório às 6h. E consultamos nossos e-mails o tempo todo, seja no metrô antes de chegar ou durante a noite. Na verdade, trabalhamos ainda mais quando não estamos no escritório”. Por quê? “O país está em crise, é o que os patrões sempre dizem. E, como ter um funcionário contratado custa o dobro do que é pago para os funcionários, nos lotam de trabalho para fazer valer a pena. Ou contratam estagiários que, a cada seis meses, vão embora (…) Você quer falar sobre crise? Visite a Venezuela”.

Consciente de seus privilégios, Julie conta que ainda não sabe o que quer fazer quando seu período sabático acabar. “Quero fazer algo em que possa usar meu corpo e cérebro, no qual eu não fique parada o dia todo. É um desperdício de energia!”. Meu palpite, o qual ainda não contei, é que ela deveria investir em seus dotes fotográficos.

Nascida e criada no sul da França, ela morou em Paris desde que cursou faculdade. “Mas só quero voltar [para o sul] quando tiver 40 ou 50 anos. Também não quero voltar para Paris agora. Quero encontrar um lugar mais humano para viver”.

Falar sobre política é difícil. Para mim, quase indigesto. Some a – tentar – traduzir palavras como impeachment, golpe e eleições diretas. Assim como no Brasil, temos nossa versão tupiniquim do Trump – me recuso a citar nomes -, a França não fica atrás. Nas pautas LGBTQ, o casamento gay só foi aprovado em 2013, no mandato do último presidente. No ano passado, a bancada católica foi às ruas contra o direito. Primeiro mundo para quem?

Julie está hospedada na minha casa, em São Paulo, há alguns dias. Desde então, me invade com suas ideias e impressões. “Não confio em políticos. O mundo muda através das pessoas. É conversando com pessoas que mudamos, pouco a pouco, tudo o que vem acontecendo”.

Publicado originalmente em março de 2017

Também recomendamos a leitura de: Third World Problems

Ana Sasso

Ana Sasso

Editora do We Love. Pensa alto, fala sozinha e rabisca em papéis pelo caminho. Quando não está escrevendo, está pensando no que vai escrever. É jornalista, mas vive entre contar e inventar histórias aqui.
Ana Sasso

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *