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O que a gente não diz porque tem medo

Três macaquinhos

A gente não diz porque dói. Assentimos, sorrimos sem graça, mas sempre acabamos não dizendo o que é para ser dito: basta. É que dizer causa incômodo e, se tem uma coisa que a gente não gosta, é de causar incômodo. Desviamos o olhar, desconversamos, mas, no fundo, a gente fica com medo e ficar com medo nos revela para nós mesmos. A gente não diz porque o medo cala.

A gente não diz porque é mais fácil simplesmente não dizer e seguir a vida. A gente fecha a janela no fim do dia porque não é seguro depois que o sol se põe. A escuridão causa medo e é por isso que a gente não diz; o café morno queima a língua e o que resta senão simplesmente seguir para a cama e ficar calado como a noite? Silêncio dói. E revela. Temos medo de revelações. A gente não diz porque aprendemos a causar boa impressão. Tem um quê de moralismo em toda boa impressão e a moral, o que sabemos sobre moral na vida que, de já tão desgastada, perdeu o sentido? Parece que quanto mais a gente não diz, mais a gente tem vontade de dizer. Mas eu sei como é sentir medo, ser abusado atrás do armário e chorar porque dizer é como mostrar a sujeira para a mãe. A gente não diz porque tem medo.

A gente não diz porque algumas palavras são pesadas demais e fazem nossa língua cair. Não diz porque dizer não é mais abstração. Tudo que a gente não diz fica guardado e, quando ninguém vê o que está guardado, o que está guardado é quase inexistência. O que não é dito não pode ser contestado, não pode ser usado contra nós, não pode nada porque simplesmente não o é. Por isso, a gente não diz.

A gente não diz porque ter medo tem muito a ver com o que a gente tem vergonha. Tem muito a ver com o que faz a gente se sentir pequeno. Tem muito a ver com nosso cansaço emocional, com nosso descrédito frente aos absurdos do mundo, com nossa desconfiança na humanidade. A gente não diz e, por não dizer, ficamos rodando em círculos no meio da cidade, pegando conduções erradas e tomando caminhos que já foram percorridos por vezes incontáveis.

A gente não diz porque se sente sujo mesmo. Ensinaram-nos a pedir desculpa e dizer sim mesmo quando sabemos que estamos certos e queremos dizer não. A gente não diz porque nosso nome na boca dos adultos soa agressivo e isso nos lembra da infância quando o medo parecia desproporcional. A gente não vai dizendo coisas e não sabemos muito bem o motivo de não dizer. Depois, descobrimos que (quase) todas as coisas que a gente não diz é porque tem medo.

O que a gente não diz porque tem medo é o que nos mata. E é o que nos salva. Talvez exista um meio termo. Ainda não descobri.

Ronaldo Gomes escreve todas às quintas para o We Love. Leia mais textos do autor aqui.

Ronaldo Gomes

Ronaldo Gomes

Estudante de jornalismo que teoriza sobre qualquer besteira que encontra pela frente. Adora dançar – não na frente das pessoas – e escreve em um ritmo sobre-humano, ou gostaria. Já cantou em um coral, escreveu a própria biografia quando tinha menos de 10 anos e hoje vive contando histórias sobre a inimaginável capacidade humana de ter sentimentos.
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