O tempo que ganhei perdendo tempo com outras pessoas • We Love

O tempo que ganhei perdendo tempo com outras pessoas

O tempo que ganhei perdendo tempo com outras pessoas

A gente sabe que tem um monte de coisa legal pra fazer sozinho. A Netflix lança uma série nova por dia, a HBO ocupa as noites de domingo com os novos episódios de Game of Thrones, tem uma pilha de livros na sua cabeceira que você comprou ju-ran-do que ia ler antes do final do ano, mesmo que já seja novembro e você não tenha ouvido nem aquele álbum que entrou no Spotify em Maio.

Dá pra ir pro bar e fazer novos amigos com quem dar risada a noite inteira; dá pra ficar em casa com as pernas pra cima rodando o Facebook no celular e tentando acertar na piadinha do Twitter; dá pra ler um livro sobre hábitos e tentar mudar o lado em que você usa o mouse. Dá pra conhecer um museu novo por semana, assistir a um grupo de pagode cantar um medley de “Deixa em Off / Lancinho / Deixa acontecer / Coração radiante” e se surpreender por saber a letra de todas as músicas.

Mas também dá pra dar. E comer. Não disse o quê. E, gente: que coisa. Comer é uma coisa ótima. E dá pra comer sem botar a mão. Dá pra comer só com o olho, sabe? Ana Carolina diz que tem dessas pra comer com dez talheres. Tem gente que pede o dobro. Tem gente que é um negócio louco: você não precisa nem ver nada demais. É uma marquinha no ombro que te remete ao suor que escorre da nuca e, quase timidamente, desvia o caminho e escorre pelo colo. E passa pela marquinha. E é só ver a marquinha e olhar no olho que, pronto!: comeu.

A vida que a gente ganha na delícia de conhecer o outro na sua particularidade é a vida que a gente ganha em se conhecer na busca do outro. Não precisa nem ir muito profundamente. Dá pra conhecer alguém só no toque. Na pressão da mão, no jeito de olhar, no que escolhe falar, onde quer pegar. E a gente se conhece na reação. A gente se encontra na mão espalmada na parede meio suja, cheia de quadros nem tão bonitos assim. A gente se conhece no não ir embora, no ficar mais um pouco, no deixar isso pra lá.

A gente ganha tempo de vida quando conhece alguém tão, mas tão sem noção que faz a gente se perguntar “por que eu tô fazendo isso?!”, porque descobrir os nossos próprios porquês se torna muito mais importante do que qualquer outra coisa. E quando a gente descobre, a gente ganha mais tempo ainda por saber nem gastar energia com quem vai te levar a refazer a mesma pergunta. A gente ganha tempo de vida quando troca papo furado com alguém que cita seu autor preferido sem querer e te sobe um arrepio na espinha. Não é amor, não é paixão. É aquele sentimento de: ponto pra você! A gente ganha tempo de vida sentindo arrepios em todas as extremidades do corpo. Descobrindo corpo que a gente nem sabia que tinha.

Ganho tempo de vida conhecendo gente babaca. Conhecendo gente linda. Gente incrível. Gente que dá e come o que tiver na mesa. Gente que abraça a oportunidade e cria tantas outras só pra usar os dez talheres que não tira da bolsa. Ganho tempo de vida conhecendo gente que estraçalha meu coração em mil pedaços, e me permite reconstruí-lo mais forte dois dias depois. Ganho tempo de vida quando sinto vontade de mandar “Bom dia!” e mando. Ganho mais tempo ainda quando a vontade passa. Ganho tempo de vida dividindo séries, livros, filmes e indicações de autores maravilhosos que moram na minha cabeceira com pessoas que andam com dez talheres na bolsa. Ganho tempo de vida conhecendo gente que me ensina que, para eu conseguir aprender a ser gente, primeiro preciso ver gente. Viver gente. Comer gente. Se com dez talheres ou vinte, depende de cada um. Eu carrego na bolsa um par.

Gi Marques

Gi Marques

Sou a poesia da contradição de tênis e batom vermelho escrevendo histórias que vivi e inventei (qual é qual já não dá pra te contar).
Gi Marques

Últimos posts por Gi Marques (exibir todos)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *