O trabalho do Cupido • We Love

O trabalho do Cupido

O trabalho do Cupido

– Dá licença!

A voz veio junto com uma cutucada no ombro nu daquela figura angelical, suspensa no ar a pouco mais de um metro do chão. Curioso, ele guardou suas coisas no em suas coisas.

– Pois não?
– Queria dizer que o doutor não tem feito um bom trabalho não.
– Como? – disse ele descendo e colocando os pés no chão.
– Acho que o doutor tá fazendo alguma coisa errada, só pode. É de doutor que chama anjo? Nunca falei com um.
– Não sou doutor, não, senhora.
– Então tá, seu Cupido. Num sei o que cê foi meter minha neta com aquele traste lá…
– Err…
– A menina era boa moça, sabe? Agora que arrumou esse aí, não sei que que houve na cabeça dela, tá numa de rebeldia agora. Cê acha isso certo?
– Olha, senhora…
– E qual é o critério que você usa?
Outra voz surgiu do outro lado do pequenino.
– Minha esposa me largou. Disse que se apaixonou por outro homem. Que também era casado. Agora duas famílias foram destruídas. Você acha que fez a escolha certa?
– Escolha?
– Você acha que seu gestor aprova isso?
– Gestor?
– É! Deus. Ou vocês anjos são autônomos?
– Autônomo? Senhor…
– Moço… de vez em quando você erra o tiro, né?

As vozes iam cercando o arqueiro do amor.

– Minha amiga é linda. E ela tá pegando um cara muito feio. E tipo, na festa, tinha um cara gato, que é amigo desse cara, e ela pegou o feio. Você errou o tiro, né?
– Oi, com licença. É… eu conheci um cara em um fórum na internet, a gente tá bem próximo assim, mas nunca se viu… Como é que funciona daí? Tem umas flechas digitais ou cê vai até lá pra… cê sabe… flechar?
– Amigo, amigo, vem cá, amigo… Liga pra esse pessoal não, Cupido. Eu tentei achar um apelido, mas seu nome não dá pra fazer diminutivo, né? Vem cá, quanto que cê quer pra atirar uma flecha na pessoa certa? Eu não sei se vocês anjos gostam de dinheiro, mas eu posso, sei lá… comprar um arco e flecha novo… uma bicicleta pra você não precisar mais voar… num precisa responder agora não…
– Minha gente, pera aí. Parou! Parou!

O baixinho loiro gritou e todos ficaram em silêncio.

– O amor não foi feito pra ser entendido, não. Muito menos pra ser controlado.
Senhora, talvez o problema seja que a senhora não consegue entender as decisões da sua neta… Ela é maior de idade? É? Então… a senhora deveria conversar com ela. Mas sem julgamentos, só falar e escutar. Vai que uma entende a outra e a senhora começa a aceitar que talvez ela seja mais feliz assim?

– E o senhor. Lamento pela sua perda, mas às vezes os amores se acabam. E em vez de o senhor ficar por aí culpando o trabalho dos outros, o senhor deveria usar essa energia pra seguir em frente, quem sabe até achar um novo amor. Ainda dá tempo né?

– E você, menina? Aparência não é tudo na vida não viu? Cê ainda é novinha, tu vai crescer e entender que uma boa companhia vale muito mais do que um rostinho bonito.

– Guri, não precisa ter medo, não. Relacionamento à distância é difícil, mas não é impossível não. Se o sentimento entre vocês dois for real. Não liga pros outros não e vai na fé.

– Agora você, meu amigo. Meu amigo… Cê num pode comprar amor, nem subornar alguém pra fazer gostar de você. Mas se você quiser mesmo essa pessoa. Primeiro tu deixa de ser babaca. Depois tenta conhecer, conversar, tratar bem… funciona bem melhor que dinheiro, viu.

A roda se afastou um pouco do anjo, todos pensativos, contemplando o que ele havia dito. Quando um deles tentou abrir a boca…

– Agora chega! Ceis me dão licença que eu sei que eu sou baixinho e tirei camiseta. Mas isso aqui não é flecha, é uma antena. E não é arco, é fio de cobre. E se eu não subir nesse poste de novo pra terminar a instalação, quem vai tomar flechada no cu sou eu. Vão com Deus.

Henrique Arana

Tem 27 anos, de São Paulo, mas pode chamá-lo de Rico.
Estudou publicidade e jornalismo, hoje trabalha em agência de propaganda em Curitiba.
Seu sonho é parar de escrever sobre produtos quaisquer e poder escrever de sentimentos, dele e de outros.

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