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OCD

Foto P&B de relógio antigo mostrando 12:35

Achei um site americano que faz testes para a pessoa identificar se precisar tratar sua OCD. Tirei nota 9. Nada sério, mas “a ser observado”. Tive que confessar, para o tal site, que eu sou chata com limpeza.

Eu tenho 40 anos. Sou da geração que viu o “amadurecimento” dos distúrbios mentais. (E a construção de uma indústria em torno deles.) Quando eu era criança, pouco se falava em depressão, distúrbios obsessivos compulsivos e ninguém sabia o que era autismo; hoje se sabe até dos diferentes graus.

Eu cresci com um autista. Desses geniais. Atualmente, ele é músico e, até onde eu sei, muito feliz. Uma das minhas memórias mais fortes dele é de quando tínhamos uns onze anos e sentávamos sob o céu ainda não tão poluído do litoral norte de São Paulo todas as noites pra ver estrelas cadentes – éramos um grupo de quase dez crianças que passavam férias na mesma praia. Ele sabia os nomes de todas as estrelas e constelações. Apontava para um lado e outro e ajudava a gente a enxergar as linhas imaginárias que formavam desenhos nas noites de verão. Pelo menos é assim que eu me lembro. Dele e dos pernilongos.

Em algum momento eu cheguei à conclusão que minha mãe tinha traços de comportamentos obsessivos. Ela inventava um hábito e repetia até cansar. Ou até perder a graça. Ganhava do Tetris. Terminava o Mario Kart. Lia todos os livros de um autor. Secava a pia. Isso, ela ainda faz. Secar a pia e distribuir paninhos pela casa. Ela também andou demonstrando muito interesse em tênis. Nunca jogou, mas sabe tudo e até cotovelo de tenista ela já teve.

Eu não tenho paninhos mas, volta e meia, me vejo secando a pia. Abro a torneira e molho tudo na mesma hora. Veja, existe uma diferença clara entre sujo e molhado. Molhado eu aguento.

Faz uns anos que eu descobri que herdei isso dela. Ainda bem. Podia ter me tornado fumante. (Já tentei dissuadi-la, não tem jeito.) Teve uma época que minha obsessão era o Rei Artur. Acho que foi depois que eu li “As brumas de Avalon”. Eu tinha uns quinze anos. Eu lia tudo que caísse na minha mão sobre ele e sabia mais sobre as lendas a seu respeito – ele nunca foi rei, era filho bastardo e, bom, nem tinha reino naquela época – do que sobre o presidente do Brasil. Depois dele, foi o cérebro. E inteligência artificial. Essa, aliás, está voltando com tudo. Culpa do Elon Musk. Tive uma fase de Rainha Elizabeth. A primeira. Ela ainda é o personagem que eu conheceria se pudesse viajar no tempo. Acho que assisti os filmes da Cate Blanchett umas dez vezes cada um. Elizabeth me deu os piratas. Não esses de hoje, nem o Jack Sparrow – mesmo que eu ache ele gênio – mas os que serviam à coroa, ainda que extra-oficialmente. Se duvidar, o James Bond, em outra encarnação, teria sido pirata.

Pensei no meu amigo na infância. E pensei no meu primo André – também autista – e em várias pessoas que eu conheço que são diferentes.  E pensei na minha mania de não sair da cama se o relógio não mostrar 00, 05, 10, 15 e por aí vai. É. Se for 07:07 eu espero até 07:10. Deve ter sido isso que me deu o 9. Cada um com suas maluquices. Minha mãe seca a pia, lembra?

Fefa

Fefa

Administradora, wannabe escritora. Tenho alergia a quem usa muito jargão, acha que design thinking é novidade e não respeita o tempo dos outros. Se eu pudesse viajar no tempo e conhecer uma pessoa, essa seria a Rainha Elizabeth I.
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