Olhar de anjo • We Love

Olhar de anjo

Dizem que a vida não é fácil. Que cada conquista vale cada gota de suor. Mas para Julia, nada disso era verdade.

Desde criança, conseguia tudo, realizava todos os seus desejos.

Nos primeiro dias depois de vir ao mundo, não precisava nem chorar para que sua mãe soubesse que queria mamar. Quando um pouco maior, ganhava todos os brinquedos.

Não gostava de espelhos, sem nem saber o motivo.

Vizinhos, parentes e todos os que cruzavam seu caminho, como nas tardes de domingo passeando com seu pai no calçadão, todos se rendiam a seu charme.

Era bela, isso é indiscutível. A combinação de sua pele branca pérola, cabelos negros como a mais escura noite e olhos azuis como o céu, era verdadeiramente fatal. Sua beleza exótica e única derretia até o mais duro dos corações. Mas o que despertava nas pessoas, ultrapassava o mero deslumbre.

Na adolescência não foi diferente, porem o efeito nas pessoas começou a ficar mais forte. Estava sempre rodeada de amigos, de pretendentes. Garotos que faziam juras de amor eterno sem ao menos conhecê-la.

Sempre fora uma pessoa inteligente, não que precisasse, sempre tirava notas altas e tinha a simpatia de todos os professores, fossem eles homens ou mulheres.

Tudo isso era visto com uma certa ojeriza pela jovem, não seria diferente com ninguém, quem não iria querer ter o mundo aos seus pés? Mais isso poderia parecer um exagero. Ela era jovem bonita e atraente, mas o mundo não estava aos seus pés, ela nem conhecia o mundo. Pelo menos por enquanto.

Um dia, enquanto todos conversavam no recreio, um jovem aproximou-se com um buque de flores, tão magistrais, que era inacreditável que alguém que ainda recebia mesada pudesse comprar.

– Case-se comigo, não posso mais viver sem você na minha vida.

Julia já implorava para que o menino agora ajoelhado, para que levantasse e parasse com aquilo, quando um segundo apareceu. Ele segurava uma caixa de veludo, daquelas próprias para guardar alianças.

– “Quando fala o amor, a voz de todos os deuses deixa o céu embriagado de harmonia.” – Citando Shakespeare.

Ambos ajoelhados no concreto. Duas almas enfeitiçadas. Mas demorou para que vissem um ao outro como inimigos mortais, em busca do mesmo amor.

Lutaram. O resultado foi uma cegueira parcial, e múltiplas fraturas e várias semanas de internação.

Não se achava tão bela. Não perdia tempo na frente do espelho, sentia quase que uma repulsa.

Julia ficara atormentada. Não conseguia entender como e porque aquilo acontecia. Algum tempo depois foi uma tragédia atrás da outra. Seu pai perdera o emprego e ao chegar em casa, apavorado com a ideia de deixar sua linda princesa ser privada de todos os tesouros, se sentindo o pior pai do mundo, enforcara-se no quintal, na solitária mangueira plantada pela família.

Sua mãe, não aguentou, enlouquecera, mas sempre que a via, sorria e dizia que tudo ficaria bem.

Depois de várias tentativas de suicídio foi internada e morreu “de tristeza” como disseram alguns médicos.

Nunca entendera o que causava todo aquele sofrimento.

Como era de se esperar, frequentou a melhor universidade, viajou, e teve uma carreira meteórica, mas sempre cercada do que parecia ser uma maldição.

Todos ao seu redor pareciam encantados, enfeitiçados. Quando ela ia a algum evento, era o centro das atenções, tinha tudo e nem ninguém, nem ela mesma sabia o que era, mas ela era irresistível.

Juras de amor, casamentos arruinados (não os dela, nunca se casara), assassinatos em seu nome, suicídios.

Sentia-se sempre sozinha. É difícil entender a solidão travestida de tantas companhias. Mas ela entendia.

Tentou matar-se. Mas sempre alguém a salvava. Enterrada em sua tristeza, em um dia chuvoso, pegou uma faca e foi até o banheiro. Queria encarar-se, enfrentar seu medo. Foi até o espelho e como se entrasse em transe, viu seus olhos, azuis, lindo, puros, possuidores de uma aura que a entorpecia.

Nunca passara mais que segundos encarando seu reflexo, mas agora entendia. Passara a se amar instantaneamente. A pessoa que a encarava de volta não era uma pessoa comum, mas um anjo.

Piscar seria um desperdício, nada mais importava. Trocou a faca por uma escova e começou a alisar seus longos cabelos, como uma serviçal de si mesma. Não poderia fazer mal a um ser tão maravilhoso, não importava quantas pessoas mais sofressem, seria apenas mais um sinal de devoção. Nada importava.

Ficou defronte ao espelho por dias sem fim, penteando seu cabelo e admirando-se, até a eternidade, desfrutando de seu olhar de anjo.

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David Moratório

David Moratório

Redator e analista de conteúdo, amante de livros, domingos em casa e series bobas. Filósofo de hamburgueria que acredita que a única salvação é o amor.
David Moratório

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