Olhe nos olhos • We Love

Olhe nos olhos

Foto: Juliana Cabral

Na semana passada, enquanto navegava entre memes, textões e vídeos de gatíneos de uma timeline sem fim, um evento me chamou atenção. Aparentemente, uma amiga teria confirmado a presença em “EntreOlhares”. As coisas costumam me pegar pelo título. “Que diabos é isso?”. Não pensei duas vezes, já fui logo clicando.

SÁBADO, PRAÇA ROOSEVELT, 18HRS – CONFIRMA

“Vamos ver no que dá,” pensei.

Após uma viagem curta de metrô, desci na Sé, dei aquele rolê básico pelos calçadões e caminhei em direção ao Viaduto do Chá, aproveitando o solzinho ralo que ainda insistia em aparecer. Cachorros, artistas de rua fazendo shows, estudantes entrando e saindo da biblioteca Mário de Andrade e outras coisinhas básicas que só o centro pode nos proporcionar.

Mais alguns passos… Cheguei.

Pelos meus cálculos eram umas 50 pessoas sentadas no chão, todas em duplinha, em posição clássica de yoga. Um olhando pro outro sem dizer uma só palavra. Um cartaz estampado em um dos postes refletia: “Onde foi parar a conexão humana?”

Bora lá. Pedi licença, limpei a poeira e me assentei frente a uma moça que estava sozinha. Confesso: não fui capaz de fixar os olhos na primeira tentativa. Acabamos conversando por um tempo, até que ela me convidou para um peça de teatro – era atriz. Me despedi e parti pra outra tentativa.

Depois de um tempo sentado, um homem que aparentava ter uns 30 anos perguntou se poderíamos tentar. “Claro, vamos lá”. E começamos.

As reações foram muitas. No primeiro momento me senti exposto, como se o homem estivesse absorvendo lentamente meus segredos mais profundos através do olhar. Quase desviei o rosto, mas me mantive firme. Alguns minutos se passaram, comecei a observar os traços da pessoa e não é que lembrava meu avô? Na verdade, as fotos do meu avô (nunca cheguei a conhecer o velho). Não contive as lágrimas e aparentemente, meu parceiro de experimento também se sensibilizou. No fim batemos um papo e, Leonardo, se você estiver lendo isso, saiba que tu é incrível.

Os postes acesos anunciavam a chegada da noite na praça quando repeti pela última vez a experiência. Essa foi de longe a mais estranha. O cara provavelmente tinha a mesma idade que eu. Conversava com uma conhecida quando ele praticamente se jogou na minha frente sem dizer uma só palavra. O ritual começou automaticamente. “Meio psycho,” pensei. Depois de um tempo, pegou a mochila e começou a procurar algo, sem desviar o olhar. Um teste de ENEM imediatamente foi elaborado na minha mente. Eis as opções:

a) tá procurando uma arma

b) tá procurando um objeto cortante

c) tá procurando QUALQUER COISA capaz de resultar em um assassinato digno de Datena

d) todas as anteriores

Enxerguei o brilhante que poderia corresponder muito bem ao de uma Tramontina bem afiada.

Quando o dito-cujo estendeu a mão, me surpreendi ao ver uma embalagem de Ouro Branco. Ele sorriu. Eu ri. Não, eu gargalhei. Alto. Para minha sorte ele entrou na onda e ficamos lá, como crianças rindo de crianças em mais um viral do YouTube.

Olhar nos olhos me rendeu uma noite maravilhosa. E sabe o que é mais engraçado? Não fiz questão de saber religião, classe social, orientação sexual ou posicionamento político de ninguém. Foi conexão de verdade. Imagina que louco se a gente arrancasse o rótulo e enxergasse as pessoas como… pessoas.

Foto: Juliana Cabral
Igor Amâncio

Igor Amâncio

Produtor de conteúdo no We Love. Quase jornalista, amante da música, arranha um violão como ninguém. Um dia decidiu deixar de lado o video game e resolveu jogar com as palavras.
Igor Amâncio

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Comments

  1. Janille Alexandre

    Que experiência emocionante. Enquanto lia, fiquei imaginando como seria se fosse eu. A ausência de olhos nos olhos me assusta, principalmente pela entrega virtual que se tornou tão utilizada, como forma de “conhecer” novas amizades. Desejo ter a ousadia de olhar e me permitir ser olhada, acredito que as relações precisam disso, ser vista sem filtros. Excelente relato, belas e inteligentes observações.

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