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Onde estão os negros?

Onde estão os negros? | Crédito: Felipe Veiga Barros

Moro em Pinheiros. Trabalho no Jardim Paulistano. Estudo no Butantã. Vou ao shopping no Jardim Europa. Tomo umas cervejas na Vila Madalena. Passeio na Paulista/Oscar Freire/Augusta. Corro esporadicamente no Parque Villa Lobos. E, assim, vou levando.

Para quem não conhece SP, eu explico: esses endereços são todos adjacentes, localizados na zona oeste. De carro, você chega a qualquer um deles rapidinho; duas estações de metrô no máximo ou apenas alguns minutos andando. Ao centro e outras partes, só vou para acompanhar os turistas de primeira viagem, sedentos pelas fotos da maravilhosa Igreja da Sé, dos quitutes do Mercadão e da excentricidade da Liberdade.

Eu dei muita sorte, na verdade. Arrumei esse apê com uns amigos, num surto do proprietário que cansara de procurar moradores; afinal, quem hoje procura algo maior do que a convencionalidade de um quarto/sala? Só a gente, eu acho. E minha sorte não acabou por aí. Sabe aquelas histórias de gente que precisa ficar horas para chegar ao trabalho em SP? Eu não tô nessas estatísticas: 15 minutinhos a pé, eu chego ao meu trabalho (ou trampo, como os paulistanos costumam falar); 10, se estou com pressa; e 5, se recebo mensagem em CAPS LOCK no Whatsapp.

Geografia à parte, a verdade é que eu vivo numa bolha. E, até pouco tempo, não havia me atentado a isso. Não percebi que existe gente que pode pagar 20 mil reais numa bolsa; não percebi que muitas pessoas sequer pegaram um transporte público na vida; não percebi que insegurança não é um problema por essas áreas; não percebi que raramente cruzo com negros – e isso me chamou mais atenção.

Uma pesquisa rápida e descubro que 39,4% dos paulistanos se declararam pretos ou pardos, segundo o IBGE 2010.  Ou seja, a cada dez pessoas com quem você cruza nas ruas de São Paulo, quatro deveriam representar essa diversidade racial. Só que, por aqui – na minha bolha -, esses dados não andam batendo. Por que será?

Me envolvi num debate outro dia, cuja falante dizia que o racismo precisava parar de ser discutido porque isso só nos afasta e nos diferencia. Verdade, mas eu discordo.

Acho que precisamos falar, falar, falar, falar, falar… Até que todo mundo perceba que SIM; existe esse abismo social/racial no Brasil e no planeta. Está à nossa volta: na nossa TV, nos nossos costumes, nas nossas piadas, na nossa política, nos nossos olhos. Precisamos encará-lo com sinceridade e perguntar: o que posso fazer em relação a isso?

No último Emmy, Viola Davis disse que “a única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é oportunidade”. Mais do que nunca, contemplo a verdade dessas palavras; porque, de onde estou, não enxergo oportunidade alguma para os negros; na real, mal os vejo por essas ruas. Onde vocês estão?

Publicado originalmente em 23 de outubro de 2015. 

Adler Berbert

Adler Berbert

Editor do We Love. Jornalista, curte frases de efeito, acha que sabe jogar vôlei e está viciado em tirar fotos de anúncios nos postes da cidade. No colegial, foi expulso da banda marcial por não ter ritmo, mas ainda continua acreditando que tem potencial musical.
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