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Existe algo de transformador no ato de deixar os livros fora do lugar. Claramente, deve ser irritante procurar uma obra em sua seção temática e não encontrá-la no local esperado. O sistema acusa a existência de dez exemplares, mas todos perdidos não serão encontrados. Talvez eles se encontrem achados por aqueles que não o buscam. Afinal, o que rodeia a ideia de perder?

Quando encontro o que quero em uma livraria, biblioteca ou sebo, passo a vagar procurando nada. Várias obras que não irão para a minha casa, edições que não quero, títulos que não me atraem. Contudo, sempre vasculho outras tantas que me desejam e tantos outros que já possuo – mas precisam de lembranças momentâneas.

Foi querendo passar a mão em algumas novas edições do poeta brasileiro Manoel de Barros que encontrei uma reunião de poemas da portuguesa Florbela Espanca. Fora de lugar, na diminuta etiqueta “literatura brasileira”, resolvi folheá-la, ler algo de qualquer coisa e percebi que nunca havia lido de fato Florbela. Decidi, então, segurar o livro com vontade, buscar uma página e ver o que ali poderia estar.

Iniciava o capítulo trecho de um poema do nicaraguense Rubén Darío. Pensei em como gosto de ler coisas em espanhol. A sensação, por sua vez, me trouxe à mente uma antologia do argentino Juan Gelman, que segurei na livraria El Ateneo, na Argentina, que pensei em comprar e não comprei – e que, assim, nunca me deixou (como muito do que não concluímos). Isso me lembrou o fato de que Gelman tinha morrido um pouco antes de eu ir para Buenos Aires pela primeira vez. E, principalmente, que eu soubera do ocorrido por uma publicação do jornalista Milton Bellintani, querido mestre e grande inspiração que nos deixou – sem necessariamente nos deixar – em 2015. Assim, percebi que, além de pensar no Milton constantemente em meio às variadas aventuras profissionais, eu não consigo mais ler em espanhol sem que ele apareça ao lado do Gelman à minha frente.

Encerrei a edição em minha mão. Notei que havia feito uma leitura, de tantas outras possíveis e impossíveis, de Florbela Espanca. Um livro perdido pode levar a tantos lugares encontrados.

E, por fim, ingenuamente, entendi que:

1. Existe algum vendedor matreiro responsável por fazer com que os livros sejam desordenados de forma a nos ordenar;

2. Há também, por consequência, algo de transformador no ato de deixar os livros fora do lugar.

(Uma consideração: não prego atos rebeldes e transgressores pelas livrarias do mundo. Entretanto, agradeço alguns minuciosos descuidos que cruzam meu caminho.)

Milena Buarque

Jornalista e pós-graduanda em Estudos Brasileiros, é pedestrianista e apaixonada por livros e América Latina. Gosta de viajar, de suco de limão e de vento. Não gosta de fazer perfil em terceira pessoa. Escreve sobre tudo e nada aqui e sobre cultura aqui.
Milena Buarque

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