Os últimos a morrer ou os mais velhos do planeta – We Love

Os últimos a morrer ou os mais velhos do planeta

Velho caminhando na rua

Já faz algum tempo que eu penso sobre o futuro. Não sobre aquele futuro, meio clichê de comercial de Grecin 2000, quando você é só mais velho e sábio, mas também mais feliz e bonito aproveitando aquele dia na praia. Penso muito sobre aquele futuro real, burocrático. O futuro que te faz assinar um plano de previdência ou economizar no chocolate pro projeto verão. Aquele que te faz imaginar sua vida completa bucólica com filhos, netos, cachorros e realizações que transbordam de uns sorrisos escancarados depois do clareamento dental.

Não sei quando começou, mas foi algo ali entre o primeiro William Gibson da adolescência e algum filme de ficção. Talvez acrescido de com um pouco de Alan Moore e qualquer diálogo esquisito de um filme do Linklater. Também não sei se a arte imita a vida ou a vida imita a arte, mas meu apreço pela distopia me convenceu que esse futuro chegou.

E sobre todas as possibilidades desse futuro esquisito que eu imaginei, a que mais me intriga é a morte. Estou convencida que estamos bem perto de vencer a morte – ou ao menos, a ideia ocidental da morte. Já marcamos para breve um transplante completo de cabeça e é cada vez mais provável que você possa fazer upload do seu cérebro em pouco tempo. Some-se a isso a nanotecnologia baseada em componentes orgânicos e o cenário todo ficará ainda mais interessante.

Pelos meus cálculos, são 50 anos ou menos para garantir que a gente possa comprar a vida eterna. Nesse meio tempo, ainda teremos os avanços da medicina que farão com que se chegue aos 90 ou 100 anos com alguma facilidade. Do the math: estamos dentro, ou quase.

Não sou dessas de ter medo da morte, mas eu tenho um medo violento: bater na trave da vida eterna. Imagina o cenário – a ciência está quase lá, pronta para deixar a humanidade vivendo para sempre. E eu pego uma pneumonia faltando uns 2 meses para anunciarem a descoberta? E a gente achando que FOMO é a doença da década.  Pensa bem que bosta vai ser ficar de fora da festa da imortalidade.

Claro, vão alertar os otimistas: “basta olhar bem antes de atravessar a rua e confiar na ciência”. Mas olha, a contrapartida não é tão divertida. Você pensará – poxa, que sorte: sobrevivi. Mesmo que todos os seus amigos e familiares tenham morrido, pra sempre. Olha só que legal, de repente você é o cara mais velho do planeta. Sua artrite reumatóide vai durar pra sempre, seu cinismo e aquele hábito irritante de roer as unhas. Não morrerrão nunca. Que ideia maravilhosa.

Nos sobrarão dois destinos – e nenhum deles parece bom. Seremos nós os últimos falecidos do planeta? Ou vamos ser humanos mais velhos de toda a história? Não há como prever. Talvez só os ricos sobrevivam ou talvez vida eterna vire commodity. A gente vai precisar colonizar outro planeta ou proibir novos humanos de nascerem.

Não sei, só sei que quero viver para ver.

Isabela

Escreve sobre futuro, história, curiosidade, gente e faça-você-mesmo. Vegetariana, de esquerda e feminista, mas incapaz de falar sobre esses assuntos de maneira arrazoada, por isso, não a provoque. Nasceu na roça, mora na cidade, guarda as duas metades e tem memórias de coisas que nunca viveu.
Isabela

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