Parte I - Gabriel • We Love

Parte I – Gabriel

menino cerca por do sol sozinho | pexels

Essa é a primeira da série de três partes de um conto escrito por Lucas Nabuco.

– Vamos? – Disse o Cris, todo misterioso, com seu jeans rasgado, camiseta do John Lennon e All Star preto. Ele parecia um desses meninos de banda indie europeia. Alto, magro e pálido, como se a luz do sol nunca houvesse tocado sua pele e olhos negros. A primeira vez que o vi me senti intimidado com a profundidade do seu olhar que parecia me despir por inteiro.

– Pra onde? – Respondi com uma ansiedade na voz.

Algo sobre ele me deixava intrigado, não havia dúvida de que me levaria para mais uma aventura louca e me faria viver coisas inimagináveis.

– Segredo. Confia em mim? – Olhou-me com um sorriso irônico.

– Não! – Gargalhamos e entramos no seu Ford Ka roxo 98. Diferente das vezes que saí com o Cris antes, dessa vez ele não ligou o GPS. – Sério, para onde você está me levando? – Mais uma vez, ele respondeu minha pergunta com um sorriso de canto de boca.

O caminho nos guiava para fora da cidade. A estrada esburacada, depois de dias de chuva, fazia com que o carro balançasse o tempo inteiro e que ele dirigisse sem pressa.

O Cris ligou o som do carro. Incrível como alguém podia me conhecer tão bem. “Do you want go to the seaside? I’m not trying to say that everybody wants to go…” The Kooks começou a tocar e toda a minha ansiedade e preocupação foram embora. Com o vidro aberto, sentia o vento tocar meu rosto enquanto admirava as plantações de eucalipto. Após uma hora percebi que a mesma música estava tocando num looping eterno. Gargalhei.

– Finalmente. – Ele falou, satisfeito com minha reação à sua escolha da música.

Ri e nenhuma palavra mais se fez necessária. Deixei a música tocar e me fazer esquecer do mundo, murmurando sua letra.

– Chegamos! – Tirou os tênis, e desceu do carro.

Apressei-me para fazer o mesmo. Ele havia parado no acostamento e eu comecei a olhar ao redor, não fazia ideia de onde estávamos. Só conseguia ver mato e palmeiras.

– Feche os olhos. Respire fundo e deixe seus sentidos aflorarem. – Ele pediu. Obedeci, e acabei perdendo a noção do tempo, uma paz preencheu minha mente. – Consegue escutar? – Pássaros, grilos e lá no fundo o som do mar, contei em minha mente. – Do you want to go to the seaside?

Ele abriu a mala do carro e tirou uma mochila. Sem precisar falar mais nada, me guiou a caminho da praia. Dobrou a calça até a altura do joelho e abriu o caminho entre o mato como se fizesse uma trilha para que eu passasse.

– Queria que você conhecesse este lugar.

– Por quê? – Perguntei, claramente ansioso. Apesar de sempre me mostrar um outro mundo, ele nunca me trouxe de verdade para sua vida, como se ele não tivesse um passado.

– Fala muito de mim. Quando a solidão bateu há alguns anos, me vi sem chão. Um dia, no desespero, liguei o carro e sai sem um rumo e sem reparar no tanque de gasolina. No mesmo lugar que estacionei hoje, meu carro parou naquele dia. Eram 5 da manhã, ouvi o som do mar e o segui… – Tirou uma canga de praia da mochila e a estendeu, indicou-me para sentar, tirou também um vinho branco e duas taças. -… o sol ainda não tinha aparecido, sentei nesse mesmo local que estamos agora e vi o mais belo nascer do sol da minha vida. Lágrimas preencheram meus olhos. Chorei por horas. – Com uma leve pausa, olhou-me nos olhos, dessa vez não via o mistério que sempre me encantava nele, o vi despido de todos os seus muros. – Queria te trazer aqui desde de o dia em que te conheci, não sei o motivo, mas você sempre me trouxe uma energia e uma luz que me fazem querer te ter por perto.

Ficamos ali sentados na canga por algumas horas. O vinho acabou e o sol começou a se pôr. Deitamos no silêncio e deixamos o dia anoitecer. Em um momento, olhei-o nos olhos, minutos se passaram e ficamos estáticos. Inclinei em direção a ele e nossos lábios levemente se tocaram, ele deitou e coloquei minha cabeça em seu ombro.

– Vamos? – Falei depois de algumas horas.

O coração dele batia forte e tudo o que queria era poder ficar ali, deitado pelo resto da minha vida com os dedos dele se perdendo em meu cabelo. Ele não teve pressa em levantar.

– Gabriel? – Falou com os olhos cheios de lágrimas.

– Sim?

– Deixe para lá. – Sorriu, enxugando as lágrimas que escorriam por sua bochecha. Olhou em direção ao mar por alguns segundos, depois diretamente nos meus olhos e piscou. – Vamos! – Pela primeira vez na vida segurou minha mão e fomos andando em direção ao carro. Antes de abrir a porta corri até ele e o abracei com força, a verdade é que não queria sair dos seus braços.

Dessa vez ele não ligou o som do carro e cantarolou a volta inteira. Sua voz era simplesmente tão intensa que nenhum instrumento se fazia necessário, poderia passar horas o ouvindo cantar.

A estrada não tinha postes, a única luz era a do farol do carro. Por conta do frio, fechei o vidro e fiquei admirando a boca dele se mexer. Ele parecia uma obra de arte, crua, intensa.

Agradeci quando parou na porta minha casa e nos beijamos suavemente. Abri a porta do carro e, ao fechá-la, pisquei para ele e o esperei virar a esquina, sentei na calçada e o sorriso não saia do meu rosto. A rua estava vazia, não tinha percebido, mas já era madrugada e a vizinhança sonhava.

Nessa noite não consegui dormir. Ele simplesmente não saía da minha cabeça… Nem a praia, nem o vinho e nem o som do mar. Estava extasiado de um dia diferente de todos que já tive com ele, porque dessa vez ele não me levou para um bar, ou para assistir a um filme no sofá rasgado da sua casa, ele me levou para vida dele. Mal sabia ele que, para mim, era um caminho sem volta. Estava completamente apaixonado.

Às três da manhã mandei uma mensagem, “Você não sai da minha cabeça.”.

Finalmente o dia amanheceu, desci até a cozinha e bebi um copo d’água. Cada vez que meu celular tocava, tinha a esperança de ser uma ligação ou uma mensagem dele; o coração acelerava, as mãos suavam, mas nunca era ele. Não consegui me concentrar no trabalho e parecia que o tempo não passava, os minutos pareciam horas. Às 19h cheguei em casa, liguei a TV, procurei alguma série, ou filme clichê, para assistir na Netflix, mas o Cris ainda não saia da minha cabeça.

Nenhuma mensagem sequer. Será que fiz algo que não devia? Será que falei algo que não devia? Por que ele não responde minha mensagem? Será que eu devo ligar para ele? Será que estou paranoico e ele simplesmente não leu minha mensagem? Essas perguntas não saíam da minha cabeça, ele não saia da minha cabeça. Não quero perdê-lo, não quero não tê-lo na minha vida.

Às 20h, capotei no sofá e acordei às 7h da manhã pensando “Socorro, perdi meu horário”. Olhei o celular na esperança de ter alguma mensagem ou ligação dele, mas nada.

A semana passou, e a situação não mudava, muito menos os meus pensamentos duvidosos e a minha esperança de receber uma resposta. Na sexta-feira, decidi que era hora de falar algo. Liguei para ele.

– Oi, Gabriel, tudo bem? – A voz do Cris ecoou do outro lado da linha.

Instantaneamente minha mão começou a tremer e minha respiração ficou ofegante, tentei controlar o nervosismo e o respondi.

– Oi! – Falei desconfiado. – Tudo ótimo e você?

– Tranquilo.

– Desculpa, mas aconteceu algo? Você sumiu.

– Não, estou corrido. – Essas palavras ecoaram em minha mente, parecia que uma faca estava entrando no peito e destruindo tudo o que a gente teve.

– Ah, OK. – Desliguei com um choro engasgado, ainda sem entender como ele podia estar sendo tão frio depois de tudo o que me mostrou. Deitei, e o choro ganhou vida, solucei.

Acompanhe a continuação na próxima quarta-feira.

Lucas Nabuco

Lucas Nabuco

Apenas mais um que é capaz de fazer loucuras, que saem do grafite para uma folha de papel. Publicitário nas horas de aflição, leonino nas horas vagas e pseudo-sommelier autodidata. Encontrou em São Paulo um pouco da pacata Aracaju (cidade natal) e da "caótica" Indore (cidade indiana onde morou por um ano).
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