Perdeu – We Love

Perdeu

Já era noite quando ele pegou a condução vazia. Havia muitas possibilidades, infinitos lugares vagos, escolheu o mais afastado. Estava cansado, porém, esperançoso por novas oportunidades. Queria deixar tudo aquilo que não tinha paixão e arriscar. Mas na palma da sua mão, entregou-se a recaídas e foi lá vasculhar o passado. Reviver dores de feridas já estancadas. Quando ele se negou deixar o passado, o universo conspirou contra sua teimosia. A porta se abriu, e por ela, veio o destino lhe cobrar. Eles sentaram do seu lado, como se fossem pedir algo, mas tomaram-lhe o objeto de suas lembranças, a euforia e alguns trocados. Apalparam seu corpo sem pudor e prazer. Nada mais encontraram e partiram. Sua expressão atônita denunciava o ineditismo daquela situação. Na sua mente nada se passava, mas por um breve momento, ele contemplou a dádiva de não pensar em nada, ter a mente sã. De repente, diante da tragédia, ele pôs-se a rir, sentiu-se grato por aquele favor peculiar. Na hora quis reportar o fato aos amigos. Procurou nos bolsos o meio, mas então deu por falta do que lhe foi subtraído. Sentiu-se impotente e lembrou-se. O sentimento era parecido, o que antes estava ali, agora não estava mais. Sentiu a dor da perda, e lembrou-se outra vez. O caminho pra casa nunca havia sido tão longo, e ele o percorreu perdido em pensamentos: ter e não mais ter. Se acostumar a novas feridas e esperar. Esperar que elas se curem e não deixem cicatrizes. Ele sentiu medo, logo seus batimentos  tornaram-se ensurdecedores. Qual seria sua próxima perda? Era tanto medo de perder que ele seguiu perdendo. Primeiro, levaram-lhe a calma, depois, a ingenuidade. Passou a desconfiar de tudo e criou grades. Conduções vazias já não mais lhe interessavam. Vivia espremido entre corpos cansados, mas abominava o contato. Sempre que saltava, era só colocar o pé no chão que logo corria, às vezes fugia. Mas o tempo, ardiloso como ele é, o fez esquecer do que era perder. Quando deu por si, já estava em mais uma condução vazia, mas desta vez, o medo chegou primeiro. Arrepiou-se, e assim como lhe foi recomendado, não reagiu. Perdeu.

Nota da equipe: Gabriel Vasconcelos também é autor de Desejo Submerso. Recomendamos a leitura :)

Confira clicando aqui.

Gabriel Vasconcelos

Redator publicitário por profissão e criador de histórias por puro atrevimento. Descontar em personagens o karma diário é a minha maior diversão.
Gabriel Vasconcelos

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