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Eu te aconselharia a ir ao circo

mais idas ao circo

Não sei se é porque acredito no poder da peregrinação, mas, para que o aprendiz se torne um mestre, é impensável não deixar sua zona de conforto, soltar amarras ou lançar-se na estrada do desconhecido. Precisa-se viver como um itinerante. Segue um pouco a lógica do rio que, mesmo parado, tem águas revoltas e frescas em circulação constante. Por isso, não canso de dizer que, quando alguém se encontrar num momento da vida com o cérebro vazio, o coração rompido de dúvida e os músculos atrofiados diante da falta de movimento, o conselho é sempre o mesmo: vá ao circo.

O trapezista mescla movimentos simples e complexos nos mais diversos planos. Sem regras, balança sobre a terra firme e, com o vento na cara, encena quedas, manobras e giros, compartilhando suas destrezas com outros acrobatas. Sem tempo para análises e preconceitos, se vê arriscando e criando segurança inconsequente. As ações encadeiam-se naturalmente e o número se completa com sucesso, como prova de que a fé é a maior precursora da confiança.

Com concentração e precisão, o malabarista lança ao alto objetos que deve manter no ar. Todo esse mecanismo é um grande desafio: os movimentos criam um padrão, que precisa ser milimetricamente controlado pelo artista. Se cansar da mesmice, há descontrole e todos aqueles corpos caem sobre si.  O foco é o único capaz de sustentar a repetição sem que os reflexos percam o vigor e a estabilidade.

Invisível no abraço da tranquilidade, repousa o movimento do contorcionista; sempre preenchido de consciência e significado. O corpo precisa ser suave. Não pode haver barreira – os membros devem se recriar sem obedecer ao engenho do corpo: se dobrar, se esticar, se abrir, se fechar… Ser flexível e se adaptar a qualquer situação.

O mágico sobe ao palco, onde sua assistente o aguarda. Ele a cobre com um lençol e, após um clarão, puxa o pano. Agora, ela é um outro homem. E este é o ofício de um ilusionista. Garantir que o público se distraia. Garantir que seu mundo real se torne uma mistura de impressões – as que vêm dos sentidos com aquelas recriadas pela mente. O público é vulnerável aos truques. Parece que sobrevive melhor quando usa menos recursos cerebrais e escolhe atalhos.

Por mais controverso e cômico que pareça, o pó branco, o lápis preto e o blush corado do palhaço permitem que ele seja exatamente quem é. Sua essência absoluta é a de ser. Quando com sua cabeleira azul e seu nariz vermelho consegue espaço para se manifestar, ri um riso curativo. O palhaço assume seus fracassos, suas banalidades e consegue seguir adiante, na certeza de que outros escorregões virão.

Na verdade, acho que é por isso que sugiro ir ao circo. Porque lá é possível enxergar ilusão de todos os ângulos. Debaixo de uma lona, posso sonhar com voos artísticos sem medo de, assim como o palhaço, tropeçar.

Camilla Cristini

Camilla Cristini

Tem o costume de se refugiar nos mais loucos mundos. Usa a escrita como atalho. Carrega influências lunáticas e estrelares. Acredita que a gastronomia é uma obra de arte inventada por um deus sem parcimônia.
Camilla Cristini

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Comments

  1. Muito bem observado, detalhadamente analisado, lucidamente exposto.
    Agradavelmente configurado em conclusões que dão vontade de… realmente ir ao circo!
    …e relaxar do mundo real e se deixar levar pelas ilusões e imaginações…;
    afinal, sonhar é imaginar.

    Parabéns!,

  2. Pingback: (H)á beleza por trás do caos – We Love

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