Por que deveríamos rotular

pessoas caminhando calçada | pixabay

O polegar opositor foi o estopim da revolução. Alguns milhares de anos depois, surgiriam as formas mais rudimentares de comunicação e, passados mais alguns milhares, o tal do pensamento.

Desde então, o ser humano desenvolveu uma necessidade quase fisiológica por explicações. Entender as coisas tornou-se essencial e diz-se que algo só é compreendido de fato, quando pode ser expresso por meio de palavras.

Numa tentativa de por ordem ao mundo, nossos ancestrais saíram por aí batizando tudo que encontravam pela frente. O auto-batismo foi o ato falho. Em algum momento da história alguém disse que as pessoas não eram só pessoas.

Primeiro tinham os homens e as mulheres. No meio desses homens, outros homens que gostavam de homens; os gays. No meio das mulheres, outras mulheres que gostavam de mulheres; as lésbicas. Em ambos os grupos, haviam pessoas que não se identificavam com o próprio gênero e recorriam a uma série de procedimentos para realizar uma “mudança”; foram batizadas de trans. Tinham ainda os que gostavam de ambos e foram chamados de bissexuais.

Afinal, qual o grande problema desses rótulos?

O efeito colateral do rótulo é que, na maioria das vezes, ele me distancia de você. Me coloca na posição de diferente, mesmo que eu tenha um coração, que assim como o seu, pulsa do lado esquerdo do peito. O rótulo renega a minha humanidade e sobrepõe à ela uma característica que não deveria me definir enquanto pessoa.

Em Apenas Um Garoto, Bill Konigsberg explora de forma sucinta o paradoxo.

“Um dia acordei e me olhei no espelho, foi isto que eu vi:

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Para onde Rafe tinha ido? Onde eu estava? A imagem diante de mim era tão bidimensional que não conseguia me reconhecer nela. Eu parecia tão invisível no espelho quanto na manchete que o Daily Camera de Boulder tinha publicado um mês antes: “Estudante gay do ensino médio fala abertamente.”

Ao longo do enredo, o personagem Rafe questiona o porquê de a sociedade enxerga-lo exclusivamente como um “garoto gay” e não “apenas um garoto” (alusão ao título da obra).

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Essa é a hora em que a sua mente buga.

Pois bem, dada a clara necessidade de rotulação, pretendo ir na contramão do já clichê “pare de colocar rótulos”. Proponho que re-rotulemos. E que, a partir de agora, rotulemos à todos como SERES HUMANOS.

Afinal é isso o que somos, não?

Igor Amâncio

Igor Amâncio

Produtor de conteúdo no We Love. Quase jornalista, amante da música, arranha um violão como ninguém. Um dia decidiu deixar de lado o video game e resolveu jogar com as palavras.
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