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Por que eu odeio publicidade

Just do It - Banksy Grafitti Art | Reprodução

Até algum tempo atrás eu era uma arquiteta de informação. É provável que você nunca tenha ouvido falar sobre isso, mas o meu trabalho não era exatamente escolher que palavra combinaria melhor com o seu sofá (a definição é uma paráfrase da piada que ouvi de um amigo quando descobriu o nome da minha profissão).

Arquitetura de informação é sobre planejar a informação no ambiente digital. Some a+b e você verá que uma jornalista não praticante, viciada em internet, com alguma noção de programação e design poderia se dar bem fazendo isso. E foi o que eu fiz durante alguns anos.

E nesse tempo, onde você era uma arquiteta de informação? Em agências de publicidade, claro. Eventualmente, em algum portal ou startup – mas especialmente no meu caso, em agências de publicidade. Assim, para não ouvir mais a piada do sofá informado, qualquer campo do tipo ‘profissão’ em um formulário era preenchido com a pecha: “Publicitária”. Num misto de apego à praticidade e afastamento do embaraço, abracei a propaganda como profissão.

Preciso dizer, neste ponto, que eu nunca me decepcionei com a publicidade. Isso é uma ressalva importante, porque parece que ser frustado com publicidade é um habilidade mandatória para ser publicitário. Talvez ensinem isso na faculdade, na mesma aula onde a galera aprende a se vestir de um jeito maneiro e usar as gírias em inglês.

Eu, que na faculdade estava vivendo o romantismo do jornalismo, tive que aprender tudo isso na marra (ainda que continue tendo um gosto questionável para roupas e um sotaque de matar). Conformadíssima com a dura realidade da vida, eu olhava os aspirantes a publicitários como os bem sucedidos que eu não seria, e já os odiava. E essa é outra ressalva importante, já que, a menos que você tenha cursado Publicidade ou Jornalismo, não saberá que a rivalidade entre os cursos é uma espécie de Brasil x Argentina universitário.

De qualquer forma, trabalhar com publicidade só me fez entender o que eu não gostava na publicidade. Sobretudo porque, ao ser arquiteta de informação, eu aprendi a (tentar) entender o que as pessoas precisavam. Assim, eu poderia entregar o meu trabalho, que era fazer com que aquela informação fosse simples para elas – exatamente o caminho oposto ao da publicidade.

Por isso, em algum momento, o cinismo se tornou insuportável e eu larguei a famigerada “vida de agência”. Parei de pensar no assunto até que acabei caindo nesses portais de publicidade e li um texto sobre o tema. O que esse falava, bastante óbvio, era tratado como produto de um gênio da filosofia contemporânea (para os não iniciados, isso é prática comum no meio).

O comentário era de Brad Jakeman, presidente mundial de bebidas da PepsiCo. Em resumo, ele reclamava que o problema da publicidade era ser composta por um grupo homogêneo heteronormativo-masculino-branco-cisgênero e que, por isso, ela já não era mais capaz de entregar a inovação que ele, e a empresa comandada por ele, estavam procurando.

Verdade, verdadeira – o mundo da propaganda é de fato tudo isso – e não cria inovação. Mas o que me intrigou é o fato de um presidente de uma multinacional continuar buscando a inovação na propaganda.

Por que ele – com dinheiro e poder para fazer o que quiser – não busca a inovação pra valer? Por que ele precisa de uma “agência inovadora” capaz de convencer as pessoas de que elas precisam do produto que ele tem? A resposta é simples: porque o produto dele é uma merda. Ele precisa fazer você beber água preta com gás adoçada – mais de uma vez.

Em que outra situação ele poderia te convencer disso sem criar uma história emocionante, engraçada, divertida , um advergame ou outdoor? De que outra forma ele poderia fazer você ver valor (e pagar) por algo que não tem valor de verdade?

Tan-dan. E, assim, a publicidade vira a muleta do mundo. O fator que adiciona complexidade para tudo que temos hoje: faz as pessoas consumirem o que não precisam, e permite que as empresas continuem a criar coisas que não queremos. Assim, ela se faz necessária, gera ruído. Com ela, as pessoas passam a buscar o que não precisam. E as companhias, que podiam transformar o mundo, gastam seus esforços pagando os publicitários para nos convencer a comprar o que ninguém (realmente) quer.

Morra, publicidade.

Texto publicado originalmente em setembro de 2015.
Isabela

Isabela

Escreve sobre futuro, história, curiosidade, gente e faça-você-mesmo. Vegetariana, de esquerda e feminista, mas incapaz de falar sobre esses assuntos de maneira arrazoada, por isso, não a provoque. Nasceu na roça, mora na cidade, guarda as duas metades e tem memórias de coisas que nunca viveu.
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Comments

  1. Hehehe, morra publicidade, mas antes paguem para anunciar em meu portal de conteúdo descolado. =**

  2. Rodrigo, ainda não temos publicidade no nosso site, justamente por estarmos buscando formas de monetizar o negócio sem interromper a experiência do usuário. Inclusive, se você tiver experiência na área e quiser colaborar conosco, estamos abertos a sugestões. Abs.

  3. Odeio publicidades em todas as formas.
    Não compro nada que seja vinculado a publicidade.
    Todos intervalos comerciais “mudo” volume da TV. Carros ambulantes odeio e cinco. No Cel sempre aplico como spam.

  4. Publicidade, antes das redes sociais, era mais fácil de vender, que o diga o Fernandinho com sua camisa bonita, ou uma criança vestida de vaquinha perguntando se “tomo?”. Bastava colocar alguém famoso com seu produto em mãos cantando ou fazendo grandes jogadas no basquete ou futebol e pronto. Hoje para lançar algo novo com as redes sociais é bem diferente…

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