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Por que precisamos falar sobre assédio

O homem é o melhor em ser o pior | Crédito: Felipe Veiga Barros

2017 foi o ano em que a revista TIME escolheu “the silence breakers” como “person of the year”. Desde outubro, mais de 40 mulheres – famosas – acusam o diretores de Hollywood de assédio sexual. No total, são mais de 70 homens acusados. Ashley Judd foi a primeira a iniciar o movimento, após contar sua história, que aconteceu em 1997. “Eu contei para o meu pai. Eu contei para todo mundo”. Vinte anos depois, finalmente o mundo a escutou.

A reportagem ainda diz:

“Quando estrelas de cinema não sabem para onde ir, qual a esperança para o resto de nós? Qual a esperança para aquelas que estão sendo assediadas por colegas de trabalho mas continuam em silêncio com medo de perder o trabalho que precisam para educar os filhos?”

Se hoje trabalho com estratégia e produção de conteúdo, no início da faculdade e até após dois anos de formada, meu trabalho era como repórter. O que eu mais amava nesse trabalho era que, em um dia, eu poderia estar acompanhando sessões na Câmara de Vereadores e, no outro, praticamente dentro do Rio Tietê conhecendo as histórias de quem recolhe recicláveis do rio para sobreviver. Isso mantém o pé no chão – assim como faz com que a gente conheça muita gente e, claro, esteja em mais situações em que o assédio é comum. Curiosamente, passei por muito mais situações assim quando trabalhava com política nos quatro primeiros anos da minha carreira. 

Nos últimos meses, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) fez uma pesquisa em parceria com a Gênero e Número com mais de 500 jornalistas brasileiras, mapeando como o machismo afeta estas profissionais em seu ambiente de trabalho. Os números não são nenhuma novidade. Mais de 70% já receberam uma cantada que as deixaram desconfortáveis durante o exercício da profissão e o mesmo número também corresponde aquelas que tomaram conhecimento de alguma colega sendo assediada no ambiente de trabalho. Quase 90% já foi discriminada por conta de seu gênero e 83% já sofreu algum tipo de violência psicológica. Apenas 15% denunciou as ocorrências. Vale dizer: o assédio pode ocorrer tanto de colegas de trabalho como de fontes. No ano passado, uma repórter do iG foi demitida depois de denunciar – e comprovar – um assédio sexual vindo de um cantor. A editora que endossou a denúncia também foi demitida semanas depois.

“Na primeira redação em que trabalhei, tinha um âncora que agarrava as jornalistas na redação. E todo mundo ria. Uma vez, eu estava sentada e ele veio me incomodar… E lambeu minha orelha. O-cara-lambeu-minha-orelha. E as pessoas riam. E os chefes viam. E riam”, contou uma das entrevistadas durante a pesquisa. Ontem, ao escutar o Morning Show, programa da Rádio Jovem Pan, um dos apresentadores questionou em tom de deboche: “Nessa nova era, como vou ensinar o vocábulo ‘paquera’ para meus filhos?”. A resposta é óbvia para qualquer mulher.

A questão sobre assédio é que ele acontece em todos os ambientes – dentro, fora do trabalho e, muitas vezes, até dentro de casa. Falar cada vez mais sobre o assunto não é a única solução. O que precisamos cada vez mais, somos nós, mulheres, nos educarmos sobre o assunto para: 1. Identificar quando um assédio acontece; 2. Ficar ao lado de quem passou por isso.

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Ana Sasso

Ana Sasso

Editora do We Love. Pensa alto, fala sozinha e rabisca em papéis pelo caminho. Quando não está escrevendo, está pensando no que vai escrever. É jornalista, mas vive entre contar e inventar histórias aqui.
Ana Sasso

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