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“Vá a lugares que te chamam”. Estava dentro de um avião em Paris, com destino a Amsterdam quando fiz essa anotação no meu celular. Tinha acabado de ler esse post da Elizabeth Gilbert e quis chorar sem alguma razão.

Estava embarcando para o último destino da viagem dos meus sonhos, a qual levei mais de um ano programando, e tive que engolir o choro antes das instruções de decolagem – não que eu fosse entender alguma delas. Quarenta minutos depois, desembarquei na Holanda e, mais uma vez, tive vontade de chorar.

Dessa vez, me sentia abraçada pela cintura por um amigo querido que há anos não via. Era o fim de um ciclo. Foram quatro países, 1.600 fotos no celular, por volta de 500 na câmera fotográfica, alguns textos inacabados na cabeça, 16 kg de bagagem e muitas descobertas no caminho.

Mais que dívidas, viajar me trouxe aprendizados. Sobre culturas, sobre os outros – e o que Sartre já dizia sobre eles. Mas, principalmente, sobre mim.

Aprendi a ser leve – em todos os sentidos. Se algo faltar a gente se vira. Encontra um similar, passa em uma farmácia ou compra um chá de procedência duvidosa na lojinha chinesa – e tá tudo bem assim. Aprendi também a não acreditar em nada do que me dizem sem tomar prova. Me alertaram sobre coisas que até hoje sigo procurando a respeito de Istambul – que, na verdade, me recebeu com muito kebab, Raki, música sertaneja (sim) e amor. Tive a oportunidade de testemunhar um dos casamentos mais lindos da minha vida – ou pelo menos eu acho que foi – e dançar Macarena descalça como se não houvesse amanhã.

Descobri que é possível se apaixonar a cada esquina e que Barcelona realmente inspira, como dizem alguns cartazes por lá. Percebi o quanto São Paulo é cruel com a gente e que é possível, sim, viver melhor – é só a gente estar disposto a isso.

Me permiti deixar meus preconceitos com o coco e, de brinde, tomei o suco mais lindo e delicioso da minha vida. Descobri o quanto Espanhol e Catalão podem ser bonitos de ouvir.

Caminhei sem rumo, descobri que o mais gótico do bairro gótico era eu mesma, vi um jogo de futebol no campo pela segunda vez na vida e corri para não perder o último metrô da noite. Tomei champagne (cavas!) no meio da tarde, fiquei amiga dos chineses donos dos bares e tomei cerveja “de barril” por um euro.

Em Paris, entendi que a vida é muito mais do que a gente imagina – independentemente de onde seja. Achei que seria engolida pela cidade, mas sobrevivi. Peguei o metrô às 5:30 da manhã para ver que muitas pessoas dormem ali, nas escadas, porque não tem outro lugar para ficar. Achei a cidade muito mais perigosa, machista e atrasada que Istambul.

Tomei banhos com estratégia e minutos calculados – afinal a água quente do quarto acabava e, ainda por cima, alagava o apartamento de baixo. Não tive tempo para todos os métodos de lavagem de cabelo. Nada de pré-shampoo, shampoo diluído, máscara agindo por três minutos. A maquiagem e o perfume ficaram guardados – já que não tinha espaço, nem paciência, para abrir a mala todos os dias. Experimentei (e odiei!) bloody mary.

Enfrentei três horas de fila (com vinho!) na chuva e ri alto quando descobri que os banheiros públicos falam – em francês -, mesmo que a maioria dos turistas não vá entender. Tomei coragem e finalmente matei minha vontade de comer churrasco grego de rua. Deitei na grama e esperei a Torre Eiffel acender – mas perdi os primeiros segundos porque estava olhando um cachorro correndo por ali. Descobri que ser amável e gentil não custa nada.

Em Amsterdam, desisti de me programar. Não li nada a respeito da cidade e, quando cheguei, quase fui atropelada por um bondinho. Descobri que motos e bicicletas podem trafegar pela calçada, junto com os pedestres, e tudo bem, ninguém – ao que parece – morre por isso. Pelo menos não por lá.

Dormi no sofá de um estranho. Experimentei o Couchsurfing – e foi melhor que o Airbnb! Comi falafel, space cake e reconheci a bondade nas pessoas que moram ali. Fiquei com o coração apertado ao sair da casa da Anne Frank e pensei em quantas Annes sírias estariam escrevendo seus diários naquele mesmo momento. Não achei Holandês uma língua tão difícil de entender.

Vivi sem 3G no celular. Vi bebês brincando sentados na esteira de malas e os pais tranquilões com a situação. Dormi sentada com a cabeça encostada na mochila, igual àquela galera mochileira de pé sujo que a gente encontra às vezes no aeroporto.

Eu me permiti. Ninguém disse que seria divertido o tempo todo. Mas desde então está sendo incrível.

Ana Sasso

Editora do We Love. Pensa alto, fala sozinha e rabisca em papéis pelo caminho. Quando não está escrevendo, está pensando no que vai escrever. É jornalista, mas vive entre contar e inventar histórias aqui.
Ana Sasso

One Reply to “Porque decidi viver como turista”

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