Prefiro ser mulher de coca com sexo • We Love

Prefiro ser mulher de coca com sexo

coca cola, almoço, copos, cups, coke, lunch | pixabay

Está sendo difícil de aceitar essa mulher que, hoje, eu sou.

Tornei-me vaso de um espírito maduro, porém, tão superficial para certas coisas. Estou tentando entrar em consenso comigo mesma enquanto envelheço. E não é fácil. Mas, é possível.

Posso falar como se estivesse me comunicando com outra pessoa. Um homem. Talvez isso torne o discurso mais fácil e mais fluido do que dirigir a lição a mim mesma. Lecionar ao sexo masculino sobre as inseguranças do feminino sempre é mais confortável e mais cômodo. Confesso.

Em resumo, geral já sabe (e finge que aceita) que os corpos têm a liberdade de ser como são. Ótimo. Palmas para todos vocês. Isso é sinal de que o problema não é mais a mídia. É com todos vocês. E, a partir do momento em que vocês compram a ideia da dita cuja, mesmo que de forma impensada e inocente, estão fadados a seguir, bovinamente, o que lhes foi imposto.

Como assim? Eu te explico:

Hoje, não é preciso que as imagens de mulheres magras nos intimidem 24 horas nos comerciais, novelas, filmes e seriados. Basta, apenas, que um nutricionista na televisão diga que malhar é fundamental, comer salada é imprescindível e que bacon mata.

Não preciso que todos os videoclipes sejam de mulheres perfeitas que choram amores não correspondidos.

Basta, apenas, que mil “Bibis Perigosas”, da novela A Força do Querer, tomem o quanto de cerveja que quiserem e continuem com um corpo que, uma mulher na sua estrutura convencional, não conseguiria manter com o mesmo nível de consumo alcóolico.

E não, eu não preciso que diversos desfiles da Victoria’s Secret passem na TNT para que eu fique constrangida com a minha falta de controle alimentar. Basta, apenas, que mais um casal fictício mostre que não importa com quantos meses de gravidez a mulher esteja, com uma pitada de bom humor da parte dela, ele sempre sentirá tesão por aquela pessoa maravilhosa que conheceu há anos. Viu? É o mesmíssimo discurso de anos atrás só que com uma faceta diferente.

E vocês, o que fazem?

Ao invés de perceberem a patacoada moderna que ocorre logo em frente aos vossos olhos, matriculam-se em crossfit, comem marmita encomendada low carb, correm (literalmente) contra o tempo, desgastam-se quase que desumanamente, gerando, muitas vezes, vários tipos de somatização e estresse crônicos, e ainda acham que estão libertos das influências da mídia e de suas garras grudentas.

É. Vocês são mesmo bem resolvidos.

E, não, não vai adiantar o discurso do ‘eu me sinto bem fazendo isso’. Não adianta porque não estou discriminando as atividades e opções em si, apenas a hipocrisia dessa sociedade que, de livre, não tem nada. Voltemos à mim.

Eu, por vez, vejo-me cada vez mais cansada, porém, igualmente focada.

O tempo me ensinou a ver com mais precisão o que eu quero para o meu futuro e, hoje, não estou medindo os passos para alcançar meus objetivos. Em contrapartida, ainda me pego no dilema destas questões “digital influenced ” ou “media brainwashed ”, afinal, faço parte desta pocilga que chamamos de mundo, não é mesmo?

Mas, ao contrário do que muitos podem imaginar, não vou lamentar, tampouco descrever minhas angústias.

Vou apenas falar-lhes sobre a decisão que tenho que tomar, todos os dias, ao olhar no espelho: não vou cair novamente. Os anos 1990 acabaram e, com eles, suas ideias de que todos deveriam ser irmãs gêmeas univitelinas da Britney Spears. Vou celebrar a este fato de verdade, sem hipocrisia, sem demagogia.

Vou me impor cada vez mais. E tentar me reacender. Aliás, não quero acreditar mais na dedução boba, porém, desesperadora para muitas mulheres: “Se eu comer, engordo. Se engordar, não fico com ninguém. Não ficando com ninguém, não encontro um cara especial. Não encontrando um cara especial, vou morrer só”. Até porque, cá pra nós, estou começando a pensar que é inevitável que um cara legal saiba apreciar e valorize bastante uma mulher com mais gordura: a não ser em casos de biótipos (o que, na genética brasileira, não é tão comum assim), não imagino que uma mulher que trabalhe em horário comercial, estude nos horários não-convencionais, tente se equilibrar entre crises de pânico, tenha uma vida social minimamente aceitável e, consequentemente, seja um ser humano interessante para se relacionar, vá ter tempo para virar garota de Ipanema ou crossfiteira trincada.

Impossível. Pode checar se essas “fitness” (ergh) não tem uma vida econômica um pouco mais fácil ou desfrute de retorno financeiro sem muito suor. Para as outras (as que eu acredito que têm um pouco mais de conteúdo do que os push-ups praticados no dia anterior ou a nova dieta que adotou essa semana), sobram as gordurinhas que o tempo e a paciência não deixaram levar embora.

Prefiro, então, com essa minha nova maturidade, ser do segundo time.

Não, eu não vou ser magrinha a ponto de que você possa se deleitar com as minhas saboneteiras. Apenas vou poder conversar sobre assuntos diversos, começando em aliens e terminando em como Donald Trump ficou tão laranja.

Não vou poder correr às 7h da manhã de um domingo. Mas, vamos poder rir de Bojack Horseman ou Rick and Morty até às 3h da madrugada desse mesmo dia.

Não vou dividir uma salada com você. Pelo contrário, prefiro ser mulher de Coca com sexo. Vou contigo no podrão, bater aquele litro da venenosa e ainda roubar umas batatas fritas para ter sobre o que brigar e terminar a noite em uma transa suada e satisfeita.

Agora, diz aí: não é muito mais interessante? Eu, pelo menos, consigo transpor a barreira da minha própria existência e sentir uma enorme atração por alguém igual à minha descrição anterior. E, cara, se você também se identifica, além de ser real, parabéns: você também não caiu na patacoada.

Leia também: Sexo não me surpreende

Maluh Bastos

Maluh Bastos

Pernambucana, DJ em andamento, jornalista e aspirante em advocacia. De pouco a pouco, é alguém que acredita na liberdade de escolha e na igualdade social. Fã de harry potter e no âmbito da música aconselha sempre que siga seu coração e, nunca, NUNCA apenas o que todo mundo ouve.
Maluh Bastos

Últimos posts por Maluh Bastos (exibir todos)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *