Procissão das almas • We Love

Procissão das almas

Procissão das almas

*Para ler ouvindo: M83 – Wait

Em toda cidade de interior, naquelas casas mais antigas que resistem ao tempo e ao progresso, vive alguma velhinha que passa o dia xeretando o vai-e-vem das pessoas na rua.

Não era diferente na cidadezinha de dona Carmem. Sábado era o melhor dia para ficar na janela, o dia de mais movimento naquela rua de paralelepípedos, casas de cores desbotadas e telhados carregados de plantas. Na parte da manhã, cumprimentou alguns, conversou com outros, observou uns pedestres. Às 11 horas, almoçou uma sopa rala, cochilou no sofá enquanto a televisão falava para um cômodo sem espectador. À tarde, voltou ao seu posto: abriu a cortina de crochê e debruçou seu colo velho na janela de madeira comida pelo cupim.

Dessa vez, a movimentação era diferente e deixou dona Carmem um pouco confusa. Era muito religiosa e não perdia uma missa ou procissão, mas será que estava tão velha que tinha esquecido da procissão daquela tarde?

Ficou de olho nas pessoas vestidas de branco e segurando uma vela. Tentava procurar algum rosto conhecido, mas nada. Um senhor se aproximou e entregou-lhe uma vela dizendo que voltaria no dia seguinte para buscá-la. Dona Carmem boa amiga aceitou o pedido.

Assim que a procissão se distanciou ela fechou a janela e sua cortina de crochê. Colocou a vela ao lado da sua cama no criado-mudo e engoliu os comprimidos que já nem lembrava mais para que tomava: vitamina? Pressão alta? Reumatismo?… Vestiu sua camisola comida por traça, mas que tinha um toque confortável e adormeceu.

Despertou junto com o galo de seu Agenor, vizinho ao lado, tateou pelos óculos e ao coloca-los notou que no lugar da vela do dia anterior havia dois ossos e nos pés de sua cama um homem e um garoto. Dormiu de novo.

Natalia Moreno é escreve todas às segundas para o We Love. Leia mais textos da autora aqui.

Natalia Moreno

Natalia Moreno

Natalia Moreno é apaixonada por literatura, animais, músicas... Formada em Letras, pós graduada em Literatura Inglesa é autora dos romances Quando eu me amar e Marcas da Vida. Tem o defeito de querer colocar tudo em ordem, desde um quadro torto até o mundo e se desespera por este último estar fora do seu alcance.
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