Quando acordei sozinho • We Love

Quando acordei sozinho

Coração espetado

Quando acordei, eu sentia um misto de alegria, saudades e melancolia. Meus olhos não sabiam se choravam ou se sorriam e meu corpo ainda tentava decidir se queria ficar ali por mais cinco minutinhos ou pular da cama e nunca mais dormir.

Faz um pouco mais de uma semana que ela se foi. Não foi inesperado, dessa vez o destino não puxou os fios da crueldade e mandou pequenos avisos sobre o que estava por vir, mas, mesmo assim, você nunca está preparado, afinal o que acontece quando o porto seguro afunda?

É estranho como a vida segue seu caminho natural. Nos dias seguintes, você tem que trabalhar, comer, lavar a louça, como em qualquer outro dia. E cada pessoa sente à sua maneira. Alguns choram, esperneiam; outros sorriem, conversam, tentam se consolar de alguma maneira. Dessa vez, eu, que já interpretei os dois papéis, não fiz nada disso.

Passivamente me calei. Mesmo sendo aquele que esteve mais próximo nos últimos anos, não reagi. Ainda não reagi. As pessoas dizem para você que chorar é natural – e é mesmo –, mas nem sempre as lágrimas conseguem achar o caminho para fora dos olhos, elas ficam presas nadando atrás de uma barreira pensamentos e frases cimentadas em um muro de sentimentos.

Pode ser por não conseguir externar tais coisas, que isso tem acontecido comigo ou, talvez, por acontecer é que eu não precise falar sobre. Antes de acordar, eu não estava sozinho. Nos meus sonhos, desde que – um tempo antes de ir – se tornou distante, ela aparece para mim: dia sim, dia não. Nós conversamos sobre a vida, cozinhamos juntos como sempre fizemos e já até nos despedimos, mesmo antes de na vida real chegar o adeus.

É difícil ser ateu quando alguém que você ama vai embora. É difícil porque você consegue ver o conforto que a fé em um lugar melhor dá àqueles que creem. É difícil, pois você quer sentir aquele gosto doce de que as pessoas nunca vão realmente embora, que elas não acabam. E, para mim, hoje, é particularmente difícil. É difícil porque queria tanto que nesses sonhos, noite após noite, fosse ela, uma parte dela, sua essência, sua alma, que viesse conversar, cozinhar e sonhar comigo. É difícil porque tento com todas as forças negar aquilo que sempre acreditei. Que esses momentos, às vezes segundos ou poucas palavras, tão preciosos agora, são apenas fruto da minha imaginação, do meu subconsciente que sente tanto sua falta que te projeta diariamente, buscando momentos tenros nas minha lembranças, para não deixar você se perder.

Então, quando acordei, depois de vê-la novamente, entrei nessa roda gigante de sentimentos. Respirei fundo. E mesmo sem saber – ou realmente acreditar – sei que vivi mais um dia ao seu lado. E, honestamente, não me importa se é real ou não, porque, no fim das contas, quando o despertador toca e eu preciso levantar, por causa dela, eu não me sinto sozinho.

Henrique Arana

Tem 27 anos, de São Paulo, mas pode chamá-lo de Rico.
Estudou publicidade e jornalismo, hoje trabalha em agência de propaganda em Curitiba.
Seu sonho é parar de escrever sobre produtos quaisquer e poder escrever de sentimentos, dele e de outros.

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