Quando conheci a AIDS – We Love

Quando conheci a AIDS

A primeira vez que ouvi falar sobre a AIDS, eu estava no primário e foi uma explicação muito técnica: “Aids, ou Sida, em português, é uma síndrome de imunodeficiência adquirida. É uma condição de deficiência do sistema imunológico, adquirida por via sexual, transfusão de sangue contaminado ou uso de seringas infectadas”. Aprendi o conceito, fiz a prova, o ano acabou e fui para quarta-série do ensino fundamental, sem pensar mais nisso.

Lembro-me que quando eu tinha quase 10 anos, descobri que Cazuza – que era a trilha sonora lá em casa – estava completando “10 anos de morte”, naquele ano e havia morrido em decorrência da AIDS.

– Por que ele morreu? Tanta gente fica doente e se recupera – questionei.

– Porque a AIDS é uma doença que não tem cura – minha mãe respondeu, prontamente.

– Eu sei, vi no colégio, que ela enfraquece o sistema imunológico, que é o sistema protetor do organismo – parafraseei a explicação da professora, rs. – Mas como é a doença? Catapora te deixa com feridas, sarampo com pintas vermelhas. O que a AIDS faz de verdade?

– Exatamente, por ela enfraquecer o sistema de defesa, a pessoa não consegue lutar contra outras doenças e acaba ficando mais e mais doente, porque as bolinhas brancas (glóbulos brancos) não conseguem combater os invasores. Entendeu? – ela perguntou, após tentar me explicar.

Concordei com a explicação, mas, na minha cabeça, criei a seguinte história: a AIDS era uma onda maléfica que, ao contaminar os glóbulos brancos do corpo, eles se desintegravam e nós perdíamos o nosso exército e, assim, os vírus – invasores – conseguiam entrar no nosso corpo e nos dominar.

Quando a gente começa a se interessar, mesmo que pouco, por um determinado assunto, começamos a ser impactados, de diversas formas, sobre isso.

Nesse mesmo ano, recordo-me que Malhação, na temporada com Priscilla Fantin, Mário Frias e Samara Felippo, teve como um dos temas a AIDS. Uma das personagens foi infectada e tinha que aprender a viver com a nova condição, a enfrentar o preconceito. Mas, o que na época me impressionou, foi a cena onde as meninas estão na aula de educação física e Érica, personagem com HIV/AIDS, cai e rala o joelho. Uma das meninas que estava com ela, tenta se aproximar e ela grita desesperada: “Não, não me toca!”. Depois ela explica para a amiga o porquê do pânico. Mas o exagero como foi colocado em cena, me chocou bastante, porque parecia que uma pessoa com AIDS não poderia ser tocada. Quem estava assistindo à TV comigo, era minha tia Bel, assim que me virei para ela, ela me respondeu antes que eu pudesse perguntar.

– Não, não é assim que a pessoa é contaminada. Apesar de ser transmitido pelo sangue, não é por uma gota ou por um arranhão e, sim, por uma transfusão de sangue. Aí, é só uma novelinha.

No fim daquele ano, ganhei no natal o livro “Depois daquela viagem”, de Valéria Piassa Polizzi, que conta a história da autora, de como contraiu o vírus HIV de seu primeiro namorado, com quem havia perdido a virgindade em 1987, aos 16 anos, e como lidou com a doença, após a descoberta em 1989, durante uma viagem aos EUA. O livro foi publicado em 1997.

Confesso que, hoje, eu percebo como livro mudou a minha concepção sobre a AIDS e me fez entender sobre o que se tratava a doença, comprovando que precisamos falar sobre isso, discutir e divulgar. Principalmente, conscientizar também as crianças de que a AIDS é uma doença que é possível tratar e conviver com ela.

O primeiro passo – acredito eu – é vencermos o nosso próprio preconceito e não termos medo de falar sobre o assunto.

Bruna Guimarães

Bruna Guimarães

Jornalista & fashion lover. Made in Aracaju, living in São Paulo. Acredita que o amor é sempre destino e glitter, uma segunda pele. Louca por carnaval e mar e sorrisos e pessoas interessantes.
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