Quando ela se encontrou com Deus • We Love

Quando ela se encontrou com Deus

Quando ela se encontrou com Deus

Ela conseguia ouvir o som dos seus passos enquanto caminhava, mas não via o chão. Seus pés batiam firme em um precipício branco. As paredes – que paredes? – também eram brancas e infinitas, assim como o céu. Ela parou. Sentia no estômago uma sensação estranha, gelada, como uma náusea de viagem de barco. Era difícil manter o equilíbrio ali, todo aquele branco parecia envolvê-la em um horizonte imaginário.

Seu corpo não teve tempo de se acostumar com o ambiente, quando ela sentiu todos os pelos de seu corpo se arrepiarem. Uma presença. Quente. Forte. Preenchendo todo aquele vazio com sua abundância. Ela não podia ver, mas sabia que algo estava lá.

– Olá – Era uma voz tímida, mas imponente. Como um café forte, bem adoçado.
Ela não respondeu.
– Olá – repetia. – Estou aqui. Vim te conhecer pessoalmente. Devo dizer que é uma honra – acrescentou.
– O que é você? – Ela respondeu, olhando para frente. Mesmo sentindo que seu interlocutor estava em toda parte.
– Sou todas as coisas.
– Deus? – questionou, mesmo sabendo a resposta.
– Se preferir assim.
– Estou morta? – ela apalpava o próprio corpo, procurando por feridas, falhas, qualquer coisa que lhe desse razão.
– Está tudo bem agora. Vim te receber, te conhecer.
Ela se manteve em silêncio.
-Não quer saber como você… Morreu? – Ela pôde pela primeira vez sentir relutância Naquela voz, um sentimento de aversão àquela palavra.
– Isso importa agora? – respondeu ela, desafiadora.
– Eu sabia que você era especial.
– Não somos todos?
– São – ela quase pode ver um sorriso, em algum lugar.
– E você quer conhecer cada um de nós?
– Cada um.
– E como isso tem saído pra você até agora? – não é sempre que a Fonte de Todas as Respostas é deixada sem palavras.
– Você, por acaso, sabe o que está acontecendo lá embaixo? É embaixo mesmo? – ela perguntava exaltada. – Guerras, fome, doenças, crimes… Você sabe?
– Sim. Eu sei. Mas não estamos aqui para falar de todas as mazelas do mundo. Estamos aqui por você.

Ela abriu a boca para retrucar, mas se conteve. Ela sabia. Ela sentia. Podia sentir que naquele branco, o planeta e seus problemas, aqueles que via na TV e nos jornais, pareciam tão efêmeros. Aquele não era mais o mundo que ela havia vivido, era apenas o mundo dela. Seus problemas, suas memórias, seus afetos e afagos. Sonhos e experiências. Todo aquele branco era sobre ela.

Ela se soltou. E deixou-se levar pela corrente, pela força de suas memórias enquanto mergulhava em si mesma. Ela se viu, aos 5 anos, colocando a mão na frigideira quente para tentar pegar uma panqueca e causando uma queimadura de segundo grau. Lembrou-se de, aos 20, ter ajudado a empurrar um carro parado na avenida com mais alguns desconhecidos. Ela viu o dia em que, aos 9, ganhou uma bala do dono da banca de jornais depois de comprar um monte de pacote de figurinhas com um bolo de moedas que juntou em casa. Viu sua mãe sorrindo e chorando de alegria, raiva e tristeza, incontáveis vezes. Viu-se sentada embaixo da escada do colégio e sentiu novamente seu primeiro beijo.

Toda sua vida, ela pode viver novamente cada momento, os bons e os ruins, mas dessa vez como espectadora, ao lado daquela presença que, a cada sorriso, choro, ou tropicão, parecia envolvê-la mais e mais em um abraço acalante.

– Por que você me mandou para lá? – Quando tudo acabou, com uma lágrima presa no canto do seu olho. – Por que você me mandou para lá? Sabendo que eu iria sofrer, sabendo que eu não ia conseguir? – Ela disse, olhando fixamente para seus pulsos.
Ela podia sentir aquele calor cada vez mais próximo a ela.
– Quando eu os criei. A todos vocês, foi para isso. Criei você também com o mesmo propósito…
– Para ser infeliz?
– Para SER – respondeu, mais rispidamente. – Para ser. Para viver. Para passar por cada momento único que a vida proporciona. Bons. Ruins. Cada segundo significou algo que só existe dentro de você. Quando uma folha cai, uma folha cai. Mas só você pode ver aquela folha caindo, dentro de seus olhos, dentro da sua mente, do seu coração. Aquilo é único, é seu. E todos os seus momentos são só seus. Isso é lindo. É isso que torna você e todos os outros únicos, perfeitos. Eu nunca quis que você fosse infeliz, não todo o tempo, mas, até na sua tristeza, é possível enxergar o belo, pois é sua.
Ela sentia as lágrimas escorrendo por todo seu rosto, enquanto apertava com força seus punhos, com as mãos, revezando entre eles.
– E porque você nos traz aqui? – questionou.
Ela se sentiu sendo envolvida por aquela presença, não sentia mais seus punhos doloridos, suas lágrimas, nada. Ela era, pouco a pouco, acolhida definitivamente por aquela presença. Enquanto o branco deixava de existir, ela pôde ouvir a voz pela última vez.
– Para pedir perdão.

Henrique Arana

Tem 27 anos, de São Paulo, mas pode chamá-lo de Rico.
Estudou publicidade e jornalismo, hoje trabalha em agência de propaganda em Curitiba.
Seu sonho é parar de escrever sobre produtos quaisquer e poder escrever de sentimentos, dele e de outros.

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